Artigos publicados no jornal Folha do Sul

Semanalmente, desde 09/01/10, são publicados artigos no jornal Folha do Sul de Bagé-RS. Os artigos figuram na coluna Tribuna Livre, na segunda página.

FOLHA DO SUL - Edição de 24 e 25/07/10

O Brasil bate cabeça na preparação para a Copa

*João José Forni

Semana passada, com pompa e circunstância, o presidente Lula lançou o plano de obras para a Copa do Mundo. Mais uma solenidade para anunciar um programa mirabolante, que existe apenas no papel. São R$ 20,7 bilhões para fazer a festa de empreiteiras, políticos, funcionários públicos e privados. E para desespero do TCU, da CGU e do MPU. Anunciou-se o valor dos investimentos, cada área já sabe quanto vai levar, mas não foi dito o principal: de onde vem o dinheiro?

O Brasil, atrasado como sempre para começar as obras, vai dar um jeitinho tupiniquim para tentar viabilizá-las: as licitações serão flexibilizadas, para que os prazos sejam cumpridos. As empreiteiras ficaram alvoroçadas, principalmente porque adoram se beneficiar da confusão. Estamos pelo menos dois anos atrasados no cronograma sugerido pela FIFA. Além disso, a medida provisória, assinada pelo presidente, vai permitir às cidades-sede aumentarem o endividamento, sem se sujeitarem à Lei de Responsabilidade Fiscal. Haja festa.

Lula mostrou-se irritado dias atrás, ao comentar críticas veladas do presidente da CBF, da FIFA e de outras autoridades sobre atraso nas obras, principalmente nos aeroportos. Ironizou as críticas, dizendo que no Brasil "as pessoas, na verdade, ficam querendo que a gente coma o mingau antes de ele estar pronto".

O contribuinte brasileiro, que todos os meses paga o recorde de arrecadação, no volume sempre crescente de impostos, pode se preparar para mais uma tunga nos cofres do Tesouro Nacional. Em 2007, quando o Brasil foi escolhido sede da Copa do Mundo, como candidato único, o governo arrotou alto e bom som que não haveria dinheiro público nos estádios e nas demais obras de infra-estrutura nos estados. Quem quisesse ser sede, que arcasse com as consequências.

Quase três anos depois, nada foi feito. Nem o local da abertura se sabe. E a iniciativa privada ficou na moita. Em Brasília, no meio do escândalo que implodiu o governo Arruda, o projeto de construção do novo estádio Mané Garrincha, o mais caro de todos, não passou pelo crivo do TCU, pois já nasceu superfaturado. Só na semana passada foram apresentados os novos projetos. O governo anuncia um portal, onde o contribuinte poderá conferir cada centavo gasto nas obras para a Copa. Alguém acredita nisso? Só se de repente todos nós acordássemos na Suécia ou no Japão.

Os aeroportos transformaram-se na Geny das obras da Copa. Nenhum estaria em condições de receber um fluxo da magnitude de uma Copa do Mundo e colocam-se dúvidas sobre a capacidade do governo de aprontá-los para 2014. A Infraero garante que, com os recursos aprovados, vai entregar tudo pronto antes da Copa. Apesar das críticas, defende-se, assegurando que hoje, de todos os investimentos previstos, só os aeroportos estariam em obras e com projetos prontos. As demais não existem. Pode ser. O Governador do Rio de Janeiro, por exemplo, que vive reclamando dos aeroportos, não consegue resolver os problemas de segurança da cidade, onde na semana passada um menino de 11 anos morreu atingido por bala perdida dentro da sala de aula.

O problema é confiar esses bilhões para as pessoas que estão hoje no comando do esporte brasileiro. Nos jogos Pan Americanos, escutamos tudo isso. E deu no que deu. O Tesouro calculava gastar entre R$ 400 e R$ 600 milhões. Teria gasto mais de R$ 2 bilhões, porque estado e município do Rio de Janeiro caíram fora. Até hoje, niguém sabe o valor correto. Para não fazer feio, como reconheceu o próprio presidente Lula, a União teve que bancar. Parece até o ensaio da Copa do Mundo. Tudo igual. Os dirigentes do Comitê Olímpico Brasileiro, que só aparecem na hora de comemorar, se fecharam em copas. O TCU interpelou o Ministério do Esporte e até agora, nós, que pagamos a conta, não sabemos para onde foram os bilhões.

Para a Copa, ainda há tempo de corrigir as distorções do Pan. Nem a imprensa, nem a sociedade acreditam que as obras transcorrerão normalmente e estejam imunes à corrupção e aos atrasos. A exemplo da África do Sul, bilhões serão gastos para construir estádios-monumentos que servirão apenas para os jogos da Copa. Depois, a maioria ficará ociosa. Como acontece em Brasília, com o estádio Bezerrão, construído pelo governo Arruda, ao custo de R$ 58 milhões. Com dois times na terceira divisão, desde 2008, só ficou lotado em dois jogos: Brasil X Portugal e nas finais do campeonato brasileiro daquele ano, entre S.Paulo X Goiás. De resto, permanece lá, um monumento ao descaso e acinte ao dinheiro do contribuinte. Quem acredita que vai ser diferente?

*Jornalista, Consultor de comunicação. Editor do site www.comunicaçãoecrise.com. jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 17 e 18/07/10

Sempre haverá lugar para os jornais

*João José Forni

O jornalismo brasileiro sofreu outra baque nesta semana. Semanas depois de termos lamentado aqui o fim do Correspondente Guaíba, da Rádio Guaíba de Porto Alegre, outra notícia entristece a imprensa brasileira. Os controladores do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, anunciaram o encerramento da edição impressa do jornal. Permanecerá somente a versão on-line. Encerra-se um ciclo da imprensa brasileira. Foram 119 anos de circulação de um dos mais fortes e importantes jornais do país. O JB nasceu em abril de 1891, nos primeiros anos da República. Ironicamente, foi o primeiro jornal no país a ter uma versão on-line.

O JB marcou toda uma geração não só de jornalistas, mas de leitores. Conseguiu sobreviver ao surgimento da República. Tornou-se um dos principais jornais do país na segunda metade do século XX. Manteve, durante décadas, um público sempre fiel que acompanhava reportagens e opiniões de jornalistas e escritores, como Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Rezende , Alberto Dines, Carlos Castello Branco, Carlos Heitor Cony, Wilson Martins e tantos outros. Também passaram por lá Eça de Queiroz (correspondente estrangeiro), Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e o Barão de Rio Branco, entre tantas figuras da história do país.

Sempre lembrado pela inovadora reforma gráfica que promoveu na fim década de 50, o Jornal do Brasil acabou modelo para os demais jornais do país. Costuma-se dividir o moderno jornalismo gráfico brasileiro em duas fases: antes e depois da reforma do JB. Foram os anos de ouro do jornal, sempre perseguido pelo concorrente O Globo, da família Marinho. Como outros grandes jornais, apoiou o golpe de 1964, contra o presidente João Goulart. Depois, foi alvo de censura pelos governos militares. Na década de 80, foi decisivo no chamado escândalo da Proconsult, quando denunciou tentativa de fraudar a eleição do candidato da oposição, Leonel Brizola, para governador do Rio de Janeiro.

A decadência do JB começou ainda quando pertencia aos herdeiros da família proprietária Conde e Condessa Pereira Carneiro. O diretor era Manoel Francisco Nascimento Brito, genro da Condessa. Na década de 80, após a construção da nova sede, e diante dos desafios do mundo moderno, com parques gráficos e tecnológicos muito caros, o JB afundou-se em dívidas. Até a sede e os demais prédios foram penhorados a bancos para garantir empréstimos.

Quando o empresário Nelson Tanure assumiu, o jornal já estava em processo de deterioração editorial e financeira. O saneamento das dívidas e um aporte de capital conseguiram dar uma sobrevida à empresa. Mas não durou muito, porque, ao comprá-lo, o dono certamente, com visão apenas empresarial, apostou menos no jornalismo do que nos dividendos políticos e no lucro. E essa é uma equação difícil para jornais impressos nos novos tempos que desafiam os publishers da imprensa.

A derrocada do Jornal do Brasil é a versão brasileira do que acontece no mundo com publicações impressas. A tradicional revista americana Newsweek foi posta à venda pelos controladores. Nos EUA, pequenos e grandes jornais fecham ou optam pela versão digital. O JB segue a trilha de outro tradicional jornal brasileiro fechado, no ano passado: a Gazeta Mercantil, o primeiro e mais antigo jornal econômico do país, controlado pelo mesmo empresário.

É paradoxal que estejamos assistindo à agonia de publicações impressas, num período em que o mercado constata recuperação da indústria do papel. A última edição da revista The Economist mostrou em reportagem (Not dead yet) que, apesar de 13.500 postos de trabalho terem se evaporado nas redações, desde 2007, nota-se um sinal de vida na mídia impressa. Cita inclusive o Brasil e a Alemanha, como países onde a circulação de jornais cresceu no ano passado.

Por isso, o caso do Jornal do Brasil tem que ser analisado mais sob a ótica da administração da empresa e da marca, do que sob o fantasma da crise atual da imprensa. A morte da versão impressa é a crônica anunciada de um negócio que já nasceu meio capenga. O argumento de que o mundo caminha para plataformas on-line, para justificar o fechamento da edição impressa, é apenas um pobre argumento para um negócio que nunca mostrou vigor. O JB dos anos recentes não mostrava apelo editorial. Sobreviveu mais pela força da marca, do que pela excelência da linha editorial.

Ou seja, apesar da triste notícia para toda uma geração de jornalistas, que consolidou a carreira no velho JB, alguns deles escritores famosos, a derrocada do jornal não sinaliza uma tendência da imprensa brasileira. Faltou para o JB empreendedores que, além de terem cacife financeiro, compreendessem que jornalismo transcende balanços, reengenharia e programas de reestruturação. Podem até os apocalípticos apregoar o fim dos jornais, como antecipou Philip Meyer, em “Os jornais podem desaparecer?”. Mas o futuro dos jornais dependerá sempre da capacidade de se concentrar naquilo que eles fazem bem: boas histórias, proximidade com os leitores, notícias locais e análises mais consistentes. Ou seja, fazer algo que seja distintivo para as pessoas pagarem por eles.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com. jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 10 e 11/07/10

O caso Bruno e a imagem do Flamengo

*João José Forni

Não é de hoje que as grandes corporações se veem às voltas com erros, escorregadas e até crimes de executivos e funcionários. Todo dia acontece. Assim também sucede com clubes de futebol, igrejas, partidos políticos, enfim, com todas as instituições.

O caso do goleiro Bruno, do Flamengo, ganhou dimensão nacional e internacional, capa de revista semanal, manchetes e espaços generosos na TV e no rádio, nos últimos dias. Mais pela popularidade do clube, do que pela importância do cidadão Bruno Souza e até mesmo do alteta. Bruno é um excelente goleiro. Pena que a habilidade embaixo das traves, não foi suficiente para dignificar a camisa do clube e seu nome.

O caráter, a ética e o comportamento de um atleta muitas vezes não correspondem à sua atuação nos gramados. Existem atletas medíocres, de pouco brilho, mas excelentes cidadãos. Apesar de grande goleiro, Bruno se vê envolvido agora num caso de sequestro, cárcere privado, desaparecimento e morte de uma ex-namorada. Se é culpado ou não, quem vai dizer é a polícia e o Ministério Público.

Mas as suspeitas sobre o atleta e a alusão ao nome do Flamengo nas manchetes policiais, com notícias sobre um possível assassinato, agravadas pelos relatos de crueldade, atingem em cheio a imagem do clube. O Flamengo, segundo o Ibope, tem o maior contingente de torcedores no país, com aficcionados em quase todos os estados. O goleiro está há quase quatro anos no clube. Manteve-se no Flamengo durante quase toda a carreira. Além disso, exerce uma certa liderança, por ser o capitão. Por isso, seu nome está muito ligado ao clube.

As organizações não podem responder pela atuação pregressa de seus funcionários. Isso é óbvio. Mas no caso de um clube de futebol, a massa de torcedores praticamente confunde os atletas com a própria agremiação. Para o torcedor, principalmente jovem, o Flamengo está sintetizado nos atletas. Por isso, a repercussão extremamente negativa do envolvimento de um de seus ídolos é uma ameaça forte à imagem do clube. Sem falar na decepção dos torcedores jovens, que o tinham por modelo.

Num primeiro momento, a presidente do Flamengo, Patricia Amorim, agiu corretamente. Convocou a imprensa e comunicou o afastamento do goleiro das atividades rotineiras e não entrou em mais detalhes. Isso ocorreu na semana retrasada, quando havia apenas indícios e suspeitas sobre o goleiro no suposto sequestro da jovem. As organizações também não podem condenar um empregado a priori. É uma situação bastante delicada, mas que não admite corporativismo.

Na semana passada, diante do agravamento do fato, com acusações formais de uma testemunha, que esteve no sítio do atleta e teria presenciado violências contra a vítima, o Flamengo resolveu lavar as mãos. Após a decretação da prisão do jogador e seus comparsas, o clube comunicou por meio de nota “a suspensão do contrato de trabalho do atleta Bruno Souza, até que os fatos sejam inteiramente apurados”. A nota de cinco linhas é lacônica e curta.

Seria um pré-julgamento do atleta? Não. As organizações, em casos como esse, procuram sempre evitar um desgaste maior na imagem, ao tentar desvincular o nome do caso. Afastar o empregado, enquanto durar a apuração. Se for inocente, haverá sempre como reparar. No caso do Flamengo, a simples menção a um atleta do elenco, sob suspeita de crime, já significaria um grande desgaste na imagem. Se houver culpa, o impacto negativo será ainda pior. Todas as reportagens, inclusive no exterior, continuarão registrando “ex-goleiro do Flamengo”. Esse será o preço que o clube da Gávea irá pagar, caso se comprove o envolvimento de Bruno no desaparecimento e assassinato da ex-namorada, Eliza Samudio.

O Flamengo só cometeu um deslize nesse episódio. Permitiu que um de seus advogados Michel Assef Filho, desse entrevistas e declarações como advogado de Bruno. Isso confundiu a opinião pública em determinado momento. Estaria o clube defendendo um acusado de homicídio? Percebida a gafe e diante do agravamento da situação do goleiro, o Flamengo comunicou que o “Dr. Michel Assef Filho não representa os interesses do clube nesta questão”. Ficou meio nebulosa a explicação. Afinal, Michel Assef é ou não advogado de Bruno?

Naturalmente, para o Flamengo, quanto menos espaço ao caso, melhor. Mas a imprensa descobriu um tema que dá audiência, com ingredientes muito presentes em notícias com grande impacto na opinião pública: celebridade, sexo, crime, violência. O Flamengo provavelmente irá se recolher e aguardar os o desdobramentos. Até porque o estrago já está feito.

O clube também não poderá omitir-se, quando procurado para opinar. Fazer de conta que não é com ele. Discreto, sem ser omisso. Isso vale para qualquer situação similar envolvendo executivos de grandes corporações públicas ou privadas. Ninguém vai querer manter em seus quadros dirigente ou empregado que todo o dia chega a uma delegacia para depor. A organização deve ser rigorosa e austera, sem ser injusta ou arrogante. Rápida, sem ser precipitada e leniente. Discreta, sem buscar holofotes para se justificar.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com. jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 3 e 4/07/10

Universidade pública refém de alunos e empregados

*João José Forni

O que está acontecendo com a universidade pública no Brasil? Nos últimos anos, temos assistido a um recrudescimento de crises que começam com ameaças de greves de professores, alunos e empregados e culminam em invasões das reitorias, algumas com uso de violência. Invadir instalações e reitorias passou a ser o esporte favorito de sindicatos e alunos que certamente não estão lá para estudar. São profissionais da baderna e da boa vida, filhinhos de papai que não pagam a universidade e associam-se a grupos para comandarem invasões e depredação do patrimônio, sob a bandeira de melhorias acadêmicas ou mais privilégios.

A Universidade de São Paulo continua refém dos empregados. Há um mês invadiram a reitoria e não deixam a universidade funcionar. Querem aumento. A última dos empregados de férias remuneradas à custa do contribuinte foi proibir o acesso à creche da Instituição. O que as crianças e as mães têm a ver com a causa deles?

As universidades públicas, em geral frouxas quanto à pontualidade e à assiduidade, com semestres cada vez mais curtos, entram assim num recesso consentido ou num ócio remunerado pelo brasileiro que paga imposto. Isto porque professores e empregados continuam recebendo salários no fim do mês. Sem ter trabalhado. Cientistas reclamam que estudos e pesquisas já estão afetados pela ação dos grevistas. O Reitor resolveu ignorar a ação dos profissionais da desordem e passou a despachar em outras instalações.
Ignorados, pode ser que desistam. Mas não teria faltado à reitoria prevenção de risco para essa invasão, que não é a primeira nos últimos anos? Por que a segurança não foi reforçada? Ou não existe mais o império da lei nos prédios públicos?

Essa é uma prática que virou moda no Brasil. O Judiciário mantém uma greve em 21 estados e no Distrito Federal. Algumas unidades estão paradas há 60 dias. Para que serve um Poder Judiciário que para 60 dias? Há empresários em S. Paulo que já perderam milhões de reais em negócios dependentes de autorizações judiciais ou de liminares emperradas pela greve da Justiça. Fora empregos, viagens e contratos que deixaram de ser efetivados nesse período. Um enorme prejuízo para milhares de pessoas.

A pergunta que não quer calar, em todos esses movimentos: por que toda essa turma de gazeteiros continua recebendo salários - alguns bem acima da média das grandes empresas do país? E ninguém toma qualquer providência para cortar essas regalias? Até o presidente da República, com um longo curriculum comandando greves no ABC, condenou essa prática. A greve é um direito do trabalhador. Sem dúvida. Mas quando ela afronta a lei e parte para o confronto, a depredação, não pode ser aceita como uma prática normal da democracia. Principalmente quando ela prejudica a população mais pobre, afetando áreas estratégicas, como segurança, transportes e judiciário.

Em Brasília e Vitória na semana passada, os rodoviários desencadearam greve que parou as duas cidades. Desrespeitaram acordo legal, que determina um mínimo de ônibus funcionando para não prejudicar ainda mais a população. Em Brasília, com a complacência dos donos das empresas de ônibus, os rodoviários não deixaram os veículos sair das garagens. Isto porque os empresários apostaram na fragilidade política do governador eleito por uma Câmara Legislativa suspeita, para forçar e conseguir aumento das passagens. Patrões e empregados juntaram-se no desrespeito à Lei e na afronta à população indefesa. Nessa hora, são todos farinha do mesmo saco. Em Vitória, o sindicato dos rodoviários ignorou liminar da Justiça para colocar pelo menos 60% dos ônibus nas ruas. Lixaram-se para decisão da Justiça, que também está em greve e colocou o país refém dos baderneiros.

Mas existem outras formas de reivindicar aumento, sem afetar a vida de estudantes, professores, trabalhadores e empresários. Para isso, entretanto, precisa haver vontade política de governos, que em período eleitoral não querem se queimar fazendo aquilo que lhes foi outorgado pela Constituição. Eles não assumem o ônus de emparedar os baderneiros, de retirar os invasores na forma da lei. É assim, de reitoria em reitoria, que a educação nas universidades públicas vai se arrastando. Cada vez mais refém de uma minoria e longe da sociedade e do mercado.

Enquanto isso, você que não faz parte dessa casta privilegiada ou não tem um sindicato forte para tumultuar as cidades, continua a levantar cedo e trabalhar, até porque, precisamos todos pagar os impostos que alimentam esse círculo vicioso da complacência com a baderna e a afronta aos poderes constituídos.

FOLHA DO SUL - Edição de 26 e 27/06/10

Afinal, ainda vale o juramento de Hipócrates?

*João José Forni

Na semana passada em S. Paulo, uma paciente de plano de saúde foi ao médico angiologista pela primeira vez. Após alguns minutos explicando o motivo da consulta, o médico fez exame preliminar nas veias da paciente. Não mais do que dois minutos. Antes de dar qualquer diagnóstico ou explicação, e sem qualquer exame de laboratório, afirmou ser caso de cirurgia. “Você está preparada para a cirurgia”? “Como assim? Eu nem sei o que tenho. Claro que não estou”, afirmou a surpresa paciente. O procedimento todo não demorou mais do que cinco minutos.

Comportamentos desse tipo parecem estar contaminando a medicina. Ou seja, aquele médico tradicional, detalhista e cuidadoso com o problema de saúde do paciente, antes de um diagnóstico, parece cada vez mais escasso. Ou os médicos não têm mais tempo para grandes explicações ou a medicina realmente se transformou naquilo que abominamos: “business”, puro negócio.

Não é de hoje que a sociedade se preocupa com a tão decantada ética médica. A pressa em diagnosticar cirurgias pode pegar desavisado pacientes idosos, portadores de doença grave ou aqueles sem alternativas para se contrapor aos argumentos do médico. Nos países com medicina mais adiantada, como Estados Unidos, França e Inglaterra, com serviço público de saúde de bom nível, cirurgias são casos extremos, quando realmente é a última alternativa para o paciente.

Já virou folclore o excessivo número de cesarianas realizadas no país, cada vez menos recomendadas pela Organização Mundial de Saúde(OMS). O Conselho Federal de Medicina anunciou no início do mês uma pesquisa com 16 mil médicos para investigar as causas do elevado número de partos cesarianos no país. Enquanto a OMS recomenda no máximo 15% dos partos com cesariana, no Brasil 43% utilizam esse meio, segundo o Ministério da Saúde. Quem associar esse elevado número à remuneração dos médicos, tem grande chance de adivinhar o porquê dessa epidemia.

Quantas vidas são colocadas em risco por causa de cirurgias desnecessárias? E o impacto financeiro no sistema único de saúde? Mas o que os pacientes podem fazer para melhorar isso? Muito pouco. A não ser questionar decisões médicas que julgar precipitadas, como fez a paciente do angiologista. E procurar outros médicos. Mas se contrapor ao profissional, convenhamos, é exceção. Se fizermos um corte apenas nos pacientes atendidos por planos de saúde, os diagnósticos de cirurgias são preocupantes. Nem paciente, nem médicos se preocupam com custos, desde que a cirurgia seja coberta pelo plano. Ou seja, os próprios pacientes deixam de fiscalizar a decisão do médico. Além da vida colocada em risco, cirurgias também congestionam hospitais, oneram o sistema de saúde e prolongam as licenças dos empregados.

Isso vale para cirurgias, mas poderia incluir internações hospitalares, exames de laboratório e procedimentos desnecessários e prolongados. Alguns hospitais são verdadeiros hotéis cinco estrelas, com diárias, equipamentos e mordomias de fazer inveja a qualquer estabelecimento semelhante no exterior. Para o hospital, quanto mais tempo o paciente ficar, melhor.

Em meio a esse comportamento, outra praga da medicina são os lobbies laboratoriais. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, para o Conselho Regional de Medicina do Estado de SP (Cremesp), avaliou a relação dos médicos com as indústrias farmacêuticas. 80% deles recebem visitas de propagandistas de medicamentos, média de oito por mês. E pior: 93% dos médicos afirmaram ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores de até R$ 500,00. Outros 37% ganharam presentes de maior valor: viagens para congressos internacionais.

A declaração do Cremesp é preocupante: um terço dos médicos mantêm uma “relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos”. O coordenador da pesquisa do Cremesp coloca em dúvida até mesmo a ida a congressos como atualização. “Ele vai é fazer turismo”, pago por terceiros. Entretanto, 62% dos médicos avaliam de forma positiva a relação com a indústria farmacêutica.

Naturalmente, incentivar cirurgias ou se submeter ao lobby das farmacêuticas não espelham a imagem da medicina brasileira. Ainda encontramos muitos médicos abnegados e sérios, principalmente no interior do país. Não há dúvidas, porém, de que a indústria farmacêutica tenta seduzir os médicos, com brindes e patrocínios que acabam criando um conflito de interesses entre profissional e uma poderosa indústria. Apesar de ser questionável, do ponto de vista ético, aceitar que a indústria farmacêutica banque congressos de profissionais no país, a maioria dos médicos (58%) ouvidos pelo Cremesp concorda com os patrocínios.

Como não existe almoço grátis, o que deve nos preocupar, pacientes e simples mortais, é a contrapartida da indústria farmacêutica, para poder bancar eventos como, por exemplo, o próximo Congresso Brasileiro de Cardiologia, em Belo Horizonte, quando são esperados 6.500 médicos. Diante desse quadro, preocupante para a sociedade, cabe perguntar: o juramento de Hipócrates ainda está valendo?

FOLHA DO SUL - Edição de 19 e 20/06/10

Quando o consumidor é um estorvo

*João José Forni

Na semana passada, entraram em vigor novos direitos dos passageiros de empresas aéreas, no caso de atrasos, cancelamento, overbooking e outros transtornos, regulamentados pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Alem de mais informações, as aéreas devem fornecer alimentação, hospedagem e até o reembolso, dependendo do tempo e da gravidade do problema. No segundo dia de vigência da resolução, com vários atrasos nos aeroportos de São Paulo, as empresas batiam cabeça. Mesmo após as decisões terem sido discutidas com as companhias aéreas, era flagrante o despreparo dos funcionários nos balcões.

É apenas pequena amostra do descaso das empresas brasileiras com o consumidor. Recente pesquisa da Consultoria GfK, para a revista Consumidor Moderno, revela que caiu o índice de satisfação dos clientes com as empresas em 2009. O tempo de espera para atendimento aumentou e a agilidade e eficiência das respostas pioraram. Regra geral, o único brasileiro que não ficou esperando por atendimento num call-center é aquele que nunca ligou.

Apesar do Código de Defesa do Consumidor estar perto de completar 20 anos, o atendimento, tanto na venda, como no pós-venda, não melhorou, principalmente pelas empresas de serviços e de comércio. Entre as campeãs de reclamações, estão sempre as de telefonia, bancos e concessionárias de serviços públicos. O desrespeito tem relação direta com a impunidade. As agências reguladoras foram criadas, entre outras finalidades, para fiscalizar os prestadores de serviços, privados e públicos. Mas também não cumprem com eficiência essa função, porque a maioria foi aparelhada pelo governo e virou cabide de emprego para apaniguados. Ou mantém uma relação de compadrio com as empresas fiscalizadas.

Resultado: o consumidor acaba tendo mais eficiência na solução quando recorre à imprensa ou aos Procons. Buscar a Justiça é outro caminho, mais penoso e imprevisível, porque não tem prazo para solução da pendência. Ou seja, o consumidor em geral se sente desamparado. Isso vale para concessionárias, guichês de repartições públicas, hospitais e até consultórios médicos e laboratórios, como se o serviço fosse um favor e não uma obrigação, devidamente remunerada.

Mas por que esse tratamento desrespeitoso é acentuado no Brasil? O consumidor brasileiro não se acostumou a exigir seus direitos, como acontece em outros países. Reclama pouco, não cobra quando a mercadoria chega com defeito e não conhece a legislação. As principais lojas nos países desenvolvidos têm um balcão só para atender reclamações e receber devolução de produtos defeituosos ou até aqueles que o consumidor resolveu devolver, simplesmente porque não quer mais. Isso faz parte da rotina de venda. Para tudo existe prazo.

No Brasil, cliente na loja para trocar ou devolver um produto é encarado com desconfiança. Parece que o consumidor cometeu um crime. O vendedor quer sempre empurrar outra mercadoria. O absurdo é o código brasileiro só prever a devolução do dinheiro, se a mercadoria tiver defeito e num prazo de até sete dias. Não existe a hipótese de alguém se arrepender da compra e poder, dentro de prazo legal, devolver a mercadoria e receber o dinheiro de volta. Isso está fora de cogitação nas relações comerciais do Brasil.

No caso de concessionárias de serviços públicos, empresas aéreas e repartições oficiais, o problema maior é a falta de concorrência e a impunidade. O site das empresas não informa telefone para reclamação ou contato. Elas não gostam de telefonema de clientes. Querem obrigá-lo a usar a internet. Só que a resposta, quando chega, vem na velocidade do correio antigo. A mesma pesquisa da GfK constatou que 41% das 150 maiores empresas do setor econômico não responderam aos e-mails enviados por consultores, testando o serviço. E 28% enviaram depois do prazo padrão. Dá para imaginar o que acontece com as empresas de menor porte.

O rescaldo desse descalabro também está ligado ao marco regulatório da privatização de muitas dessas empresas. O governo demorou para interferir no atendimento ao consumidor. Em 2008, o Ministério da Justiça regulamentou o serviço de call-center estabelecendo tempo mínimo para atendimento. Em vários estados existe também a lei da fila, em geral fixando o tempo máximo de atendimento em 30 minutos. São dispositivos que tentam colocar ordem numa relação que deveria ser de respeito e sedução e não de confronto e desconfiança, como acontece hoje no Brasil. Para muitas empresas, aquela festa toda para o cliente só existe na publicidade. A maioria ainda considera o consumidor um verdadeiro estorvo.
João José Forni

*Jornalista e Consultor de Comunicação
Editor do site www.comunicacaoecrise.com

FOLHA DO SUL - Edição de 12 e 13/06/10

Propaganda de cerveja não passa no bafômetro

*João José Forni

A publicidade dos programas esportivos no Brasil seria reprovada nos testes de bafômetro. Pesquisadores da USP analisaram 420 horas da programação nos principais canais de TV de maior audiência no Brasil e concluíram: a publicidade de bebidas alcoólicas está concentrada nos programas de esportes. Ou seja, atinge um público jovem, exposto a apelos atraentes numa fase da vida muito susceptível à sedução da publicidade.

A overdose de álcool inoculada pela televisão coincide geralmente com períodos de festas: carnaval, Natal, Ano Novo, Copa do Mundo. Até o sisudo e certinho treinador da seleção, o truculento Dunga entrou na dança redonda da cerveja, anunciando álcool em horário nobre. Sem falar nas estrelas da seleção, transformados em zecas pagodinhos muito bem pagos. Ídolos para as crianças, eles estão mais interessados na grana do que preocupados com os malefícios do álcool para jovens telespectadores.

O Conar, tão cioso em relação a propagandas que ofendem a moral ou os concorrentes, deixa o álcool correr solto na mídia eletrônica. No início deste ano, o Conselho tirou do ar propaganda de cerveja de um grande grupo por apelo exagerado à sensualidade. A campanha estrelava a socialite Paris Hilton. Por trás da restrição à sensualidade, estava o apelo a crianças e adolescentes, a população mais vulnerável, quanto aos encantos de determinada cerveja. Até a idade dos atores dos anúncios afronta a lei. Eles não devem ter menos de 25 anos.

Os especialistas reconhecem que a autorregulamentação publicitária é frouxa e não consegue evitar abusos. A publicidade da cerveja apela o tempo todo para a malandragem, o galanteio barato e principalmente aos tipos que bebem nas telas da tevê em companhia de belas mulheres. Quer dizer: se você está triste, deprimido, beba que você ficará alegre, descontraído, as mulheres ficarão impressionadas com sua desenvoltura. Quem não bebe, sofre até um certo preconceito.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o Brasil é um dos países onde há maior consumo de álcool no mundo. Em maio, a OMS - que admite ser o álcool o terceiro fator de risco para problemas de saúde e morte prematura no mundo – aprovou determinação para que a publicidade não tenha como alvo os jovens. Na Europa, ao contrário do que acontece aqui, jogadores de seleções se negam a participar de campanhas que envolvem álcool.

Pesquisa da Universidade Federal de S. Paulo, com 5.226 alunos do ensino fundamental e médio de 37 escolas paulistas, concluiu que a bebedeira é prática comum para alunos entre 15 e 18 anos. 80,3% dos jovens confessaram ter ingerido bebida alcoólica alguma vez. O fator risco mais associado ao consumo de álcool são as baladas noturnas. 33% admitem ter ficado embriagados. Associado à bebida, vem o cigarro. Adolescentes confessam ter fumado o primeiro cigarro, após ingerir bebidas alcoólicas.

Todos também sabem e os médicos estão cansados de lembrar que o álcool é a porta de entrada de outras drogas. Rapazes e moças, muitos menores de idade, começam a entrar no mundo das substâncias ilícitas pelo empurrãozinho das rodinhas de cerveja, uísque e outras bebidas alcoólicas no fim de semana.

Embora oferecer ou facilitar a ingestão de substância alcoólica a menores seja considerado contravenção penal, não há festa jovem sem cerveja. O que está faltando para o álcool entrar nas restrições já impostas ao cigarro? No Congresso, será difícil uma votação pró-regulamentação, admitem os especialistas no assunto. Já se cogitou regulamentar e restringir, ainda mais, a propaganda de bebida alcoólica. Foi um Deus nos acuda no Congresso, onde existem mais de 100 projetos de lei sobre o tema. Todos dormem nas gavetas. A bancada da cerveja está sempre atenta para detonar qualquer iniciativa nesse sentido.

Se, de um lado, o Congresso faz corpo mole, de outro a indústria publicitária também faz sua parte. Evita que os projetos caminhem nos escaninhos burocráticos do Congresso Nacional. Não querem perder essa gorda fatia de faturamento. Enquanto isso, álcool, combinado com motoristas imprudentes, compõem outra ameaça fatal à juventude nos fins de semana ou férias. Ou seja, os malefícios da propaganda excessiva de bebida alcoólica não se limitam apenas ao estímulo a drogas mais pesadas. Facilita a direção perigosa, também responsável por elevado índice de acidentes de trânsito com mortes. Um coquetel que matou 70% dos 40 mil brasileiros que morreram nas rodovias em 2009, a maioria jovens.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com. E-mail jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 5 e 6/06/10

Os 80 anos do enigmático cowboy

*João José Forni

Clint Eastwood, o mais resistente ícone masculino do cinema, completou 80 anos em 31 de maio. Ator e diretor reconhecido, o mais frio cowboy dos últimos filmes de farwest, continua vivo e atuante, com fôlego suficiente para correr pelas ruas de Nova York ou Los Angeles atrás de malandros e criminosos ou de desafiar gangs na periferia de Detroit. Dificilmente alguém viu uma imagem de Eastwood sorrindo. Aquele tipo altão, magro e carrancudo, ao estilo do filme Gran Torino, um de seus últimos sucessos, simboliza o paizão, tio, avô, que todo mundo respeita, às vezes até teme, mas no fundo gostaria de ter.

A geração que frequentava os cines Glória, Avenida e Capitólio certamente lembra-se dele. Numa época em que o cinema era a grande diversão e a TV ainda não tinha acabado com as conversas da família e invadido nossas casas, era muito comum encontrar Clint Eastwood nas sessões duplas do Glória ou nas estréias concorridíssimas do Cine Avenida. O melhor programa nas noites de domingo nas décadas de 60 e 70.

Como todo o novato, Clint Eastwood penou bastante para encontrar um papel no cinema ou na televisão, até os diretores acreditarem que aquele rapaz magro e olhar distante tinha talento. O sucesso começou a chegar em 1964, quando ele venceu a disputa pelo papel principal nos filmes de Sergio Leone, responsável pela famosa trilogia dos chamados westerns spaghetti ( Por um punhado de dólares, Por uns dólares a mais e Três homens em conflito). Aquele tipo de chapéu e cigarro na boca conquistou não apenas o diretor, mas as platéias em todo o mundo. A partir daí, sua carreira explodiu. Bastava seus filmes serem lançados, para se transformarem em sucesso e causar frisson nas meninas que hoje são vovós. Ou em clássicos do cinema, como O estranho sem nome, de 1972.

Ele cresceu à sombra de outros ícones do cinema western, como Henry Fonda e James Stuart, o que certamente não foi nada fácil. Desenvolveu um estilo e um caráter transformados na cara do moderno western. Depois, marcou época como o frio e mal-humorado policial Harry Callahan, em Dirty Harry. É sem dúvida outro memorável tipo na carreira do ator. Até a pistola cano-longo do policial acabou se consagrando nas mãos de muitos atores que hoje aparecem em filmes policiais. A consagração veio em 1992, quando ganhou o Oscar de melhor filme com Os imperdoáveis, seu último western.

Os 80 anos chegam com o ator e diretor no auge. Ele não quis comemorações ou badalações. Muito de acordo com sua personalidade. Comemorou quieto, com a esposa, apenas “tomando um copo de vinho”. Parou de comemorar aniversário, diz, quando completou 70 anos. Não precisava. Para quem atuou ou dirigiu filmes como Perseguidor implacável, Bird, Na linha de fogo, As Pontes de Madison, Menina de Ouro (outro Oscar), Gran Torino, Sobre Meninos e Lobos, Cartas de Iwo Jima e tantos outros, simplesmente marcantes para quem teve o privilégio de os assistir, todos os dias devem ser comemorados. Para os aficcionados do ator e diretor, a Warner Bros. acaba de lançar uma caixa de DVDs com 34 filmes de Eastwood, dos 50 que fez ao longo da carreira.

Com a chegada da televisão, as cidades do interior, inclusive Bagé, foram aos poucos perdendo as salas de cinema, a maioria delas transformadas em templos religiosos. É uma pena. Não fosse pelos shoppings nas grandes cidades, que inauguraram as micro-salas de cinema, com cheiro de pipoca, estaríamos condenados a ver o cowboy ou o policial somente nas telas acanhadas da TV, estranhamente falando português. Clint parece não se importar com isso. Ele não envelheceu, porque a cada filme continua se renovando. É como se tivéssemos nos acostumado com ele.

Ao cumprimentá-lo em artigo sobre o aniversário, o colunista de cinema, Tim Reeves disse: “Feliz aniversário, Clint, eu apostaria que não existe um só homem no planeta que, sob qualquer aspecto, não desejasse ser você...”

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site comunicacaoecrise.com.
E-mail jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 29 e 30/05/10

O país das megalópoles

*João José Forni

Conheci Fortaleza na década de 70. Era uma capital ainda tranquila com pouco mais de 800 mil habitantes. Provinciana, sem o atropelo de turistas e congestionamentos. Podia-se tomar banho na praia de Iracema, sem medo da poluição. Trinta e cinco anos depois, aquela cidade calma é apenas lembrança do passado. Virou metrópole, com 2,5 milhões de habitantes. Quinta cidade do país em população.

Essa transformação foi boa para o povo de Fortaleza e para o estado? Certamente não. Junto com o crescimento, caiu a qualidade de vida, a praia tornou-se imprópria para banhos e aumentaram as pressões sobre o poder público. Qual o preço pago pela população para justificar o progresso e morar numa cidade superpovoada, onde serviços públicos e de infraestrutura certamente pioraram?

No outro extremo Porto Alegre. Em 1950, era a quinta cidade do país em população. Em 1970, a capital gaúcha tinha 885 mil habitantes. Já havia caído para sexto lugar. Hoje chega quando muito a 1,6 milhão e caiu para 11º lugar. Porto Alegre quase conseguiu atingir aquele estágio ideal de cidade grande, em que a população estabiliza e começa a colher os frutos dos investimentos que podem ser feitos sem a pressão do inchaço e das correntes migratórias.

Fortaleza é apenas a síntese do que aconteceu com várias capitais e cidades do interior do Brasil, nos últimos anos. Processo acelerado de crescimento, com a consequente migração de pessoas do interior, num ritmo superior até mesmo ao da população brasileira. Fascinados pela oportunidade de emprego e pelo charme da cidade grande, migrantes abandonam pequenas cidades, deixam o campo e vêm buscar curso superior, atendimento médico, educação, entretenimento e emprego na metrópole.

No passado, crescimento demográfico era visto como sinal de progresso. Media-se a importância da cidade pelo número de habitantes. Hoje constitui problema. Brasília, planejada para ter 500 mil habitantes no ano 2000, marca atingida em 1969, chega aos 50 anos com 2,6 milhões, a quarta cidade do país em população. O que isso tem de bom para a capital do país? Nada. Assim como Fortaleza e outras tantas cidades, implica mais filas nos hospitais, bancos, repartições públicas, além de falta de moradia, carência de obras de infraestrutura, trânsito caótico e criminalidade acentuada.

Foi assim que S. Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte viraram megalópoles, onde a qualidade de vida aos poucos se degradou. Vale a pena viver numa cidade onde se gastam quatro preciosas horas do tempo somente com transporte? Compensa morar onde o simples ato de ir ao cinema ou ao teatro virou uma aventura cara e perigosa, ao enfrentar trânsito, engarrafamento, flanelinhas, estacionamento, filas?

Na maior parte dos casos, a qualidade de vida piora, porque o poder público mal consegue administrar as demandas diárias. Faltam recursos para acompanhar o crescimento acelerado. Há quase 30 anos, um governador de Pernambuco mostrava-se preocupado com essa pressão da população rural sobre a cidade grande. Dizia que um habitante no interior custava ao estado 120 dólares por ano. Na capital, esse mesmo cidadão custava U$ 1,2 mil dólares. Impossível, portanto, dotar essas cidades de infraestrutura suficiente para assimilar o migrantes.

O resultado são tragédias como a do morro do Bumba, no Rio de Janeiro. Ou os incêndios em favelas de São Paulo. Enfim, as megalópoles brasileiras apenas criaram a ilusão de uma vida melhor. Perdem quando comparadas com boas cidades do interior, como Londrina, Uberlândia, Caxias do Sul, Joinville, Campina Grande. Estas, mesmo crescendo acima do desejável, ainda oferecem excelente qualidade de vida.

Nos países mais desenvolvidos, cidades-modelo para se viver são aquelas com crescimento estabilizado da população. Em média um milhão de habitantes ou pouco mais, como Dallas, San Antonio, Filadélfia, nos EUA. Com isso, conseguem investir todos os recursos arrecadados em melhorias para a população. No Brasil, esse círculo perigoso de inchar as cidades e correr atrás de recursos redundou em metrópoles com periferia de padrões de terceiro mundo. É preciso que os governos, tanto estaduais como federal, propiciem condições para que os brasileiros se fixem no interior. Caso contrário, em poucos anos o Brasil vai deixar de ser a terra do futebol para se transformar no país das megalópoles.

*Jornalista, Consultor de Comunicação e Editor do site www.comunicacaoecrise.com

FOLHA DO SUL - Edição de 22 e 23/05/10

A pátria das chuteiras e o Brasil real

*João José Forni

Quem não gosta de futebol deve odiar a maioria dos atuais intervalos comerciais da tevê. Ou as páginas dos jornais e comentários esportivos nas rádios. Nenhum deles escapa dos arroubos patrióticos verde-amarelos que invadem a publicidade e os programas de variedades de quatro em quatro anos. É Pra frente Brasil como música de fundo de qualquer anúncio de varejo, supermercado, celular, eletro-doméstico, carro. O que mais possa vender com a camisa canarinho ao fundo.

Até o Congresso Nacional tentou entrar no clima da festa. O líder do governo sugeriu fazer um "recesso canarinho" durante os jogos da Copa. É até uma boa idéia, desde que suas excelências não recebam salário no período. Ou, por questão de equidade, que todos os brasileiros também tenham o tal recesso. Porque, afinal, nós trabalhamos para pagar os salários de suas excelências. Mas como eles só trabalham (não sei se é o termo adequado) de terça à quinta, enquanto os demais brasileiros labutam a semana toda, os parlamentares deveriam também só receber salário equivalente a três dias por semana.

Só tem um porém. Além daqueles que não gostam de futebol, transformar o país na terra da bola durante pouco mais de um mês soa como afronta em quem continua trabalhando, apesar da seleção. Durante a Copa, brasileiros continuarão nas filas do INSS, dos postos de saúde e hospitais, dos bancos, dos cartórios, dos correios, das financeiras, enfim, de todos os lugares onde não há respeito pelos direitos do cidadão, o que inclui as empresas de telefonia, de água, luz e todas as repartições públicas especializadas em criar entraves burocráticos para dificultar a vida do cidadão.

Durante a Copa, trabalhadores rurais continuarão a pé, em caminhões ou ônibus velhos a levantar de madrugada, no escuro, com a marmita de bóia-fria, para plantar ou colher nas lavouras. Afinal, os brasileiros vão continuar se alimentando enquanto o Brasil desfila pela África. Alguém tem que trabalhar para isso. Enfim, a não ser os 23 privilegiados que estarão na guerra sob o comando do mal-humorado Dunga, a rotina de esperas, transportes superlotados e trânsito caótico continuará a incomodar os trabalhadores nas grandes cidades.

Mas por que o país mergulha nessa overdose ufanista nesse período? Teria a Copa do Mundo o condão de mexer com os brios patrióticos do povo brasileiro? Por trás da idolatria da seleção há todo um trabalho de merchandising de patrocinadores e empresas de comunicação que insuflam essa idolatria para poder faturar alto com a Copa do Mundo. Na onda da seleção canarinho, fabricantes e varejistas de tevê multiplicam suas vendas. Fábricas de cerveja inundam o país de garrafas, latinhas e do precioso líquido. Indústrias de camisetas e bandeiras tiram o atraso e vestem o Brasil de amarelo. Enfim, rola muito dinheiro para determinados grupos. Quase sempre os mesmos.

Durante pelo menos 30 dias os mais fanáticos irão parar diante das telas das tevês e apostar suas fichas em 11 guerreiros que, no entendimento de Dunga, estariam defendendo a honra e a bandeira nacional. Eles saíram daqui com a obrigação de trazer o título a qualquer preço. Caso isso não aconteça, quem vai sentir é o povão que acreditou nos bordões de Pra frente Brasil e não admite em hipótese alguma a derrota. Os jogadores, a maioria residindo no exterior, provavelmente curtirão a derrota numa boate da África do Sul, como fizeram Adriano, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, em 2006, na Alemanha. Afinal, perder a Copa do Mundo não muda muita coisa na vida deles.

Aqui, a não ser pela tristeza de Lula, que não teria visto sua seleção campeã em oito anos de governo, a derrota do Brasil iria satisfazer a fome dos cronistas esportivos do Rio e de S. Paulo, que nunca engoliram o truculento e desajeitado Dunga comandando os artistas da bola. O povão, que acredita nos gritos e comentários de Galvão Bueno de que o Brasil é o melhor time do mundo, com a derrota iria jogar a culpa no treinador, absolver os jogadores e esperar mais quatro anos. Com isso, Dunga estaria condenado ao ostracismo e poderia ceder seu lugar para um técnico do Sudeste.

Mas se o resultado for o contrário, e o Brasil conquistar o hexacampeonato, ninguém segura o país. O Congresso, parado durante mais de 30 dias assistindo aos jogos, certamente esticaria a folga até o fim de julho, para receber a seleção e faturar alguns votos para a próxima eleição. Lula receberia os hexacampeões do mundo, acompanhado da candidata do PT à presidência, dizendo para todos que "nunca antes na história desse país, um presidente havia recebido uma seleção hexacampeã". Bom, pelo menos nesse caso "o cara" estaria coberto de razão.

*João José Forni, Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com

FOLHA DO SUL - Edição de 15 e 16/05/10

Os idosos brasileiros começam a subir a montanha

*João José Forni

Os aficionados do cinema certamente conhecem um belíssimo filme chamado Balada de Narayama, de Shoshei Imamura. No fim do século XIX, em algumas regiões pobres do Japão, para sobreviver é preciso descartar os velhos. Ao completar 70 anos de idade, os moradores dos humildes vilarejos deveriam subir a ao topo da montanha sagrada. Lá deveriam esperar pela hora da morte, sozinhos. Embora de extrema beleza, o filme não faz justiça à forma como os orientais tratam e respeitam os anciãos.

Por que esse preâmbulo? Simplesmente porque no Brasil, apesar do aumento da expectativa de vida, os idosos continuam abandonados pelo poder público, sofrem discriminação da sociedade e da própria família, principalmente quando doentes e dependentes. Não raro, a TV nos mostra enfermeiros ou cuidadores agredindo idosos, porque os filhos não têm condições de dar-lhes apoio. A montanha de Narayama no Brasil chama-se abandono.

O que esperar de uma sociedade que descarta os mais velhos, quando já não podem contribuir produtivamente? Ou fica indiferente à violência doméstica, porque a maioria das ocorrências não chega ao conhecimento público? A sabedoria e a experiência da idade são facilmente trocadas por valores descartáveis. Ironicamente, velho virou sinônimo depreciativo daquilo que não presta mais. Daí o triste preconceito de que o aposentado é um pária. Representaria um “peso” para a sociedade, ao sugar recursos do estado e não contribuir para a geração de riqueza. O idoso só tem alguma chance de escapar da segregação, se o salário servir para completar a renda da família. Até porque muitos ainda são a principal fonte de renda dos dependentes.

Cria-se com isso um estereótipo. Valoriza-se a geração produtiva, competitiva, sarada e bonita, que trabalha e produz. Algumas empresas chegam a colocar restrições à contratação de idosos, afrontando a lei. Por trás disso, ainda que de forma velada, esconde-se o preconceito da idade, de raça, de classe social, muito alinhado com os modelos anoréxicos e de feições anglo-saxônicas vendidos pela publicidade. Quem fugir desse padrão, pode ser descartado. Certamente, essa visão é fruto da cultura ocidental, onde os idosos são encarados como fardos, que atrapalham a corrida desenfreada pelo sucesso. Os valores da família passam a ser medidos pelo saldo da conta bancária e não pelas relações humanas ou afetivas.

Além de não existir políticas de inclusão para idosos, outra evidência do pouco caso das autoridades salta aos olhos no momento em que eles mais precisam dos serviços públicos, principalmente saúde e assistência social. A maioria não possui planos de saúde. O salário de aposentado não seria suficiente para pagar as prestações. Não resta outra alternativa a não ser enfrentar as filas e a precariedade do sistema público de saúde. Hoje, os aposentados são disputados pelos bancos, apenas porque se transformaram em clientela especial, facilmente seduzidos pelos empréstimos consignados.

Mas por que os idosos acabam sendo incômodos para os parentes e a sociedade? Hoje, ao contrário do que acontecia no passado, toda a família trabalha, fruto da revolução ocorrida na segunda metade do século XX. Ninguém, portanto, está disposto a abrir mão da carreira profissional para cuidar de idosos em casa, principalmente se são doentes. Ou eles ficam sozinhos, sujeitos aos riscos inerentes à idade avançada, ou acabam na mão de enfermeiros, cuidadores ou em casas de repouso. Ali, de certa forma, filhos ou netos tiram um peso da consciência. Compram a liberdade de prosseguir nas suas carreiras, com uma mensalidade que terceiriza os cuidados com o idoso. Opção aceitável, não fosse a solidão o resultado perverso desse exílio compulsório a quem dedicou toda a vida à família e ao trabalho.

Ignorados em casa, nos asilos as visitas se tornam raras. Os laços familiares, hoje, muito tênues, acabam definhando com a distância. A figura do avós ou bisavós não tem hoje a força do passado nas relações de parentesco.

Assim, embora os idosos brasileiros não precisem subir a montanha aos 70 anos, muito antes alguns deles já foram escanteados pela família e a sociedade. É preciso que o país se prepare, pois nos próximos anos a população com mais de 60 anos ultrapassará a de jovens. Então, a balada de Narayama, de uma alegoria genial do cineasta japonês, poderá se transformar numa dura realidade brasileira.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com. E-mail jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 08 e 09/05/10

O dia em que o rádio ficou mais triste
*João José Forni

No ano passado, em várias cidades americanas rádios e jornais locais foram fechados, por dificuldades econômicas ou estratégia empresarial. Muitos dos jornais fechados eram centenários. Entre eles o Rocky Mountain News, de Denver, Colorado, alguns dias depois de completar 150 anos. Um jornalista resumiu em poucas palavras o que significava para Denver ficar sem o seu jornal: "É com grande tristeza de nós dizemos para vocês até logo. É um dia simplesmente triste. É um dia para ser esquecido em nossa cidade".

Pois 30 de abril pode também ser considerado um dia triste para os gaúchos. Naquela sexta-feira, saiu do ar o mais antigo programa jornalístico do rádio brasileiro: o correspondente Guaíba, ex-correspondente Renner, que toda uma geração de gaúchos se acostumou a ouvir durante mais de cinco décadas.

Por problemas na grade da programação e interesses comerciais, a organização que detém hoje o controle da Rádio Guaíba resolveu acabar com esse ícone da radiodifusão da Região Sul. Comparável, no Rio G. do Sul, ao que representou para o país o Repórter Esso, nos tempos áureos do rádio. Ou ao que hoje, ressalvadas as dimensões, representa na TV o Jornal Nacional. O programa estava no ar desde a fundação da Rádio Guaíba, em 1957.

Durante 46 anos pelo menos, dos 53 do programa, os gaúchos se acostumaram a ouvir "Aqui fala o Correspondente Renner", na voz inconfundível de Milton Ferreti Jung. Grande parte da geração, que está hoje na faixa dos 40 aos 70 anos, cresceu e se acostumou a acompanhar de hora em hora os principais acontecimentos do Rio Grande, do Brasil e do mundo pela voz do locutor. Desde a famosa cobertura da Cadeia da Legalidade, até a subida do homem à lua. Da inauguração de Brasília à chegada do Papa. Todos os mundiais, desde 1958, sendo a Guaíba a única rádio fora do eixo Rio-SP a estar presente na Suécia. Enfim, a história dos últimos 50 anos, para quem não tinha tevê ou não podia assinar jornais, passou pelas ondas do Correspondente Renner, com um jingle também inconfundível.

Mas não era apenas pelo programa jornalístico que a Guaíba se destacava. Criou uma grife, com a qualidade do repertório musical e pela característica de divulgar comerciais sem spots e jingles. Propaganda única e exclusivamente através da própria voz dos locutores. Um caso único no país, certamente.

A tristeza não decorre apenas por ter desaparecido um ícone da comunicação do estado, Mas porque, ao sair do ar um programa jornalístico, perdem todos: jornalistas, anunciantes e ouvintes, principalmente a população menos informada, que não tem acesso à internet e aos jornais. Provavelmente vai ser substituído por programas gravados, mais baratos e que cada vez apequenam mais a imprensa brasileira. Se a internet já é uma ameaça aos jornais, às tevês e ao rádio, quando acabamos com programas de qualidade, principalmente aqueles voltados à difusão da informação jornalística, não há dúvida de que isso representa um tremendo retrocesso.

Infelizmente, esse fenômeno não se restringe ao Rio Grande ou ao Brasil. Em todo o mundo, cada vez mais as dificuldades econômicas e as novas tecnologias têm obrigado pequenas empresas de comunicação a se incorporar a grande grupos de mídia ou fechar. Ao serem engolidas pelos grandes conglomerados, a sociedade corre o risco de ter um direcionamento do noticiário muito perigoso para a liberdade de opinião. A idéia do pensamento único, de uma única voz dominar a linha editorial de grande parte da mídia de um país e até de continentes assusta e pode se tornar uma ameaça.

A pluralidade de idéias e linhas editoriais é benéfica para a democracia. E isso passa pelos jornais locais, rádios e canais de tevês independentes. No momento em que alguns países como China, Venezuela, Coréia do Norte e Irã restringem a liberdade de imprensa e perseguem jornalistas; em que até no Brasil ouvem-se vozes oficiais esboçarem projetos destinados a cercear a independência dos meios de comunicação, é bom ficarmos atentos ao que está acontecendo. Com a retirada do ar de um programa consagrado como o Correspondente Guaíba (Renner), não é apenas a história ou nossas memórias que saem arranhadas. Mas o interesse público que mais uma vez se curva ao poder de sedução da área comercial.

*Jornalista, Consultor de Comunicação e Editor do site www.comunicacaoecrise.com

FOLHA DO SUL - Edição de 01 e 02/05/10

Internet ainda vai passar longe das eleições
*João José Forni

A internet tem sido citada como a grande vedete das eleições. O candidato que souber usar a rede, teria grande diferencial em relação aos demais. Todos querem imitar Obama. Ele soube como ninguém usar a rede mundial para captar recursos e mobilizar, principalmente os jovens, para sua campanha. Foi o primeiro presidente eleito com a ajuda da rede mundial.

Entre o ideal e a prática, porém, vai uma grande diferença. Dois episódios recentes mostram o risco de estar exposto a uma janela eletrônica com pouco controle e sujeita à interferência de muitos interlocutores. Além disso, estamos longe de ser um país inserido na rede mundial.

Na semana passada, foi descoberto no site da pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, uma foto da atriz Norma Bengel entre duas fotos da ex-ministra. Uma quando criança e outra atual. A inserção da foto da atriz, com cabelo curto, sugeria ser a própria Dilma, quando jovem, flagrada numa passeata contra a ditadura. Denunciada a farsa, a explicação dos responsáveis pelo site, que alegaram engano, não convenceu. Mas mostra também a extrema fragilidade de querer fazer proselitismo político com textos ou imagens que rapidamente são descobertos e desmascarados pela rápida difusão da rede mundial.

Até o Twitter, moda entre os candidatos a presidente, pode ser o vilão. Há 15 dias, Obama foi vítima do Twitter. Ao conversar com uma equipe da Rede ABC, descontraído ele classificou o rapper Kanye West de “idiota”, por ter tomado o microfone da cantora Taylor Swift, na premiação do Music Awards da MTV. As imagens e o áudio do desabafo descontraído do presidente, que não era para ser divulgado, acabou postado no Twitter do repórter da ABC e se espalhou. O escorregão do repórter gerou uma tremenda saia justa para o canal de TV.

São apenas exemplos do que pode acontecer na campanha política. A reputação hoje pode ser destruída com um clique. E não adianta culpar blogueiros, assessores, jornalistas ou adversários políticos pelo estrago. Quem quiser utilizar a internet como mais um palco para se apresentar aos eleitores deve saber trabalhar esse novo meio, caso contrário o tiro sai pela culatra. Se quiser se precaver das armadilhas da rede, o candidato deve ter uma equipe moderna e afinada com a linguagem multimídia, capaz de evitar constrangimentos ou detectar e neutralizar rapidamente eventuais ameaças

De outro lado, quem achar que no Brasil pode se eleger pela internet, deve pensar duas vezes antes de investir recursos nesse meio de comunicação. Dados de 2008 divulgados na segunda-feira (26) pelo IPEA dão conta de que apenas 21% da população brasileira utilizam banda larga, ou seja 12 milhões de domicílios. Só Brasília tem um índice comparável ao dos países desenvolvidos: 51,2%. Nas demais regiões, o Brasil está no nível dos países atrasados. S. Paulo, o segundo, está na faixa de 29,4% da população e no Rio G. do Sul a banda larga atinge apenas 21,8%.

Além da pouca disseminação, outro entrave é a baixa velocidade da internet banda larga brasileira, se comparada com outros países. Enquanto Japão, Coréia e França andam na velocidade da ferrari, com 92,8, 80,8 e 51,0 Mpbs (megabit por segundo), no Brasil a média é de um fusquinha 68, igual ou menor do que 1 mpbs. Vergonhosa, portanto.

Mas tem mais. Segundo o IPEA, “um dos problemas alarmantes do Brasil é o gasto médio com banda larga”. Em 2009 equivalia, proporcionalmente, a 4,58% da renda mensal per capita, enquanto na Rússia esse índice era de menos da metade: 1,68%. Nos países desenvolvidos, essa mesma relação situa-se em torno de 0,5%, ou seja, quase dez vezes menor que no Brasil.

Na maior parte do país a internet ainda é uma aspiração. Onde chegou, em grande parte depende da linha telefônica. Especialistas apontam como causa o desinteresse das empresas de telefonia em disseminar a banda larga, porque a linha discada representaria um faturamento maior.

Ou seja, a banda larga libertaria muitos usuários da internet, do jugo da linha discada. Algumas empresas, embora afrontando a lei com venda casada, só aceitam cliente de banda larga se ele adquirir também uma linha telefônica. Ou seja, enquanto o lobby econômico das empresas telefônicas continuar segurando a banda larga, a democratização da informação para a maior parte dos brasileiros será um sonho e os candidatos terão que brigar por espaço na televisão ou no rádio. A internet vai ficar para a próxima eleição.

FOLHA DO SUL - Edição de 24 e 25/04/10

O futebol brasileiro sofre dos mesmos males da política

Aproxima-se a Copa do Mundo. Em 2014, o Brasil irá sediar o Mundial. Mas o futebol brasileiro continua tão atrasado quanto em 1950, quando perdemos a Copa em casa. O sucesso do Brasil no futebol se deve muito mais ao talento nato dos nossos jogadores e ao esforço pessoal de alguns treinadores do que à competência administrativa dos dirigentes. Nosso futebol continua dominado por cartolas que se acham donos da bola e dos cofres.

Essa política de compadrio acaba contaminando a gestão dos clubes. Raríssimos são aqueles com gestão profissional, com dirigentes que conduzem os clubes como “business” e não como trampolim para escaladas políticas. O Brasil não consegue transformar o “futebol-arte” num grande negócio, como acontece na Europa, com equipes como Barcelona, Manchester United, Chelsea, Real Madrid, Milan e outros.

Administrados por cartolas que só querem se locupletar financeira e politicamente, os clubes brasileiros de futebol vivem atolados em dívidas impagáveis, passivos trabalhistas e fiscais. Continuam improvisando, com rendas medíocres e patrocínios oportunistas, que mal dão para cobrir as dispendiosas folhas de pagamento. Com isso, passam a depender financeiramente dos direitos de arena da TV.

O que essa dependência gerou? Acabou criando um mostrengo no país, que se apropriou do futebol sob o controle de um único canal de TV e todos os seus tentáculos. Essa relação incestuosa entre CBF e um grande rede de TV determina até o horário dos jogos, que dependem da grade das novelas para se realizar. Com isso, temos absurdos durante o Campeonato Brasileiro, como jogos às 15 horas (horário do sol), no horário de verão, a temperaturas de quase 45 graus. E jogos às 22 horas no Rio G. do Sul, em pleno inverno de zero grau. Quem se aventura a sair de casa, com transporte ruim, chuva e frio, para assistir a um jogo a partir das 22 horas? O horário maluco de verão levou tribunais, ano passado, a postergar o início das partidas para horário mais civilizado.

Completa aberração, desrespeito ao torcedor e acinte aos jogadores, tudo porque o futebol, por força de contrato de exclusividade, submete-se a essa grade de programação e manda os torcedores se lixarem. Quem manda é a grana da TV. Não o bom senso, o conforto de quem paga o espetáculo ou os jogadores.

Essa aliança espúria do interesse comercial com cartolas que se perpetuam no poder, comete verdadeiros disparates. Transmite jogos insignificantes de campeonatos estaduais no mesmo horário dos jogos da Taça Libertadores. Como o monopólio da TV tem a exclusividade dos dois, submete os torcedores aos caprichos de sua grade, privando os brasileiros de verem os jogos da Libertadores. No domingo (18), às 16 horas, com decisões estaduais nos principais estados brasileiros, o Sport TV2 transmitia St. Etienne X PSG, do campeonato da França. Essa opção absurda só pode ter relação com os pacotes dos campeonatos estaduais vendidos nos chamados canais pay-per-view.

Na Europa, nos dias úteis os jogos no inverno começam às 19 ou 20 horas. Aos domingos, às 15 horas. Isso tem duas vantagens. Permite o trabalhador sair direto do trabalho para o jogo, via metrô ou ônibus. Assiste e volta para casa em horário civilizado. Resultado, no início da temporada todos os ingressos para os jogos do campeonato inglês, alemão, italiano e espanhol já estão esgotados. Tudo vendido com antecedência pela internet. O único jogo recente na Europa, com mais da metade dos lugares vagos no Emirates Stadium, em Londres, foi entre Seleção Brasileira e Irlanda, em 2 de março. E adivinhem por quê?

Porque não foi administrado pelas ligas européias. O improviso e o fracasso de bilheteria têm o dedo da CBF, que só tem olhos para o dinheiro dos patrocinadores e da TV. O torcedor mais uma vez ficou de fora. Povo civilizado tem agenda, não decide em cima da hora e nem compra ingresso em bilheteria, em filas. Isso só acontece no Brasil e na África do Sul.

Enquanto o futebol continuar administrado por um grupo que controla a CBF como propriedade privada, tentando manipular eleições com adiantamentos financeiros das cotas de TV a clubes mal das pernas, como aconteceu na recente eleição do Clube dos 13, teremos estádios vazios, jogadores e técnicos fugindo para o exterior. É assim que estamos nos preparando para a Copa do Mundo de 2014?

FOLHA DO SUL - Edição de 17 e 18/04/10

Brasília, utopia e realidade 50 anos depois

"O plano piloto de Brasília nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da Cruz." Assim Lúcio Costa definiu o seu projeto para o cartão-postal de Brasília. Um avião, com os palácios, ministérios e demais autarquias no corpo, completado por duas asas (sul e norte) residenciais, onde ficariam os habitantes. Não mais de 500 mil no ano 2.000.

Brasília extrapolou qualquer projeção de JK ou dos demógrafos. Na passagem do século, os habitantes eram quase dois milhões. O entorno da cidade, loteado e inflado pela ganância política, virou cidades-dormitório, superpovoadas, violentas e pobres, onde se comprime a mão de obra mais barata da capital.

Se até 1964, havia dúvida, principalmente alimentada pelos saudosistas do Rio de Janeiro, de que Brasília iria vingar, os militares acabaram por sepultá-la. Até porque, segundo os historiadores, Brasília se prestava ao projeto político da ditadura militar, por estar longe dos centros mais politizados e contestadores.

Apesar da agressão de políticos inescrupulosos e da fama de cidade fria, de concreto, onde o pedestre não tem vez, Brasília desmente tudo isso. Cativa por oferecer, ainda, facilidades e confortos que as grandes metrópoles brasileiras perderam. Muito verde, grandes espaços, deslocamentos fáceis no trânsito, relativa segurança, oportunidades de emprego, boas universidades, temperatura amena, fácil acesso às grandes metrópoles brasileiras e do exterior, enfim. É uma cidade moderna, embora não esteja livre dos problemas crônicos das metrópoles, principalmente nas áreas da saúde, dos transportes e da habitação.

Ela nasceu como a terra da oportunidade. Por isso atraiu brasileiros de todas as regiões. Por mais difícil que a vida tenha se tornado na nova capital, os migrantes são unânimes em assegurar que a vida aqui é melhor do que no estado de origem, não importa de onde tenham vindo. Por isso Brasília é tão controversa.

Diz-se também que ninguém fica indiferente a Brasília. Ela realmente não tem o charme e a história de outras capitais. Nem praia, morros, igrejas históricas, carnaval ou futebol. Exibe natureza e horizonte deslumbrantes, a melhor qualidade vida, a maior área verde e a maior renda do país. O que não é pouco para a quarta cidade em população.

O gesto corajoso de JK, mais do que criar uma capital moderna e referência internacional em arquitetura, rompeu a tradição litorânea e urbana do país e interiorizou o progresso. O centro-oeste, com toda a pujança agrícola atual, não seria o mesmo sem Brasília. Sua inauguração possibilitou unir Norte, Nordeste e Centro-Oeste com o Sul e Sudeste desenvolvidos. Ela funcionou como eixo de convergência desses brasis. Por mais contestada ou criticada, não há dúvida de que o Brasil do século XX pode ser dividido antes e depois de Brasília.

Há uma parcela de críticos, muitos deles residentes em Brasília, sem intenção de sair, que persistem em criticar a cidade, como se ela fosse culpada pela ficha suja e as mazelas oriundas de políticos e governantes de plantão, forasteiros que aqui se revezam de quatro em quatro anos. Preferem jogar a culpa na cidade, do que na índole desonesta de pessoas públicas que aqui já chegaram com todos os vícios de seus estados de origem.

Ao ousar construir Brasília, JK não apenas cumpriu a Constituição. Assumiu o compromisso como missão e acreditou no sonho do padre salesiano Dom Bosco. Em 1883, em Turim (Itália), ele teve uma visão da América: Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. E uma voz: "Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração"."

Aos 50 anos, está na hora de os brasileiros assumirem uma das mais bonitas e modernas capitais do mundo. Pode ser que assim, tenham mais cuidado na hora de votar e possam mandar para Brasília uma geração de políticos de que realmente o país possa se orgulhar. Assim como candangos e brasilienses se orgulham da cidade que construíram e onde nasceram.

FOLHA DO SUL - Edição de 10 e 11/04/10

A Igreja de joelhos diante da crise

A Igreja Católica enfrenta nas últimas semanas uma avalanche de denúncias que testam sua secular capacidade de enfrentar e resistir a crises. Em dois mil anos de história certamente defrontou-se com fatos graves. Das disputas pelo poder em Roma, passando pelo cisma da Reforma de Lutero, até a página negra da Inquisição. Agora, o escândalo não poupa nem a figura, vista como intocável, do Papa Bento XVI.

As notícias de abusos sexuais em instituições da Igreja não são recentes. Nos Estados Unidos, desde 2002 a Igreja tem feito acordos judiciais com vítimas nas dioceses de Los Angeles, Boston, Portland e pequenas cidades. As indenizações ultrapassam US$ 1,2 bilhão. Esses casos foram tratados isoladamente e pareciam não atingir diretamente o Vaticano. Agora é diferente. Após os escândalos nos Estados Unidos e em outros países, o fato mais grave aconteceu na Irlanda, onde o Ministério da Justiça divulgou relatório sobre abusos cometidos por padres e leigos contra milhares de adolescentes e crianças entre 1975 e 2004. O relatório critica a Igreja Católica por ter priorizado a preservação da própria imagem, a fim de evitar um escândalo, e não a proteção das vítimas e a punição dos culpados.

Estados Unidos e Irlanda, como se vê agora, eram apenas a ponta do iceberg. Denúncias também apareceram na Itália, Alemanha, Áustria, Austrália, Espanha, Suíça, Holanda e Brasil. As reações da Igreja pecam pelo conservadorismo, a omissão e a falta de transparência. Os pruridos provocados pelo incômodo tema, principalmente em países de tradição católica, como Brasil, Espanha e Itália também não contribuem para a verdade. As raras manifestações de autoridades eclesiásticas voltam-se mais para desqualificar críticas ao pontífice, do que para esclarecer, lamentar e reparar as acusações.

Se a Cúria Romana soube dos fatos e se omitiu, preservando os religiosos acusados, para evitar a publicidade do escândalo, errou. E, ao não denunciá-los, minimizou os crimes, contribuiu com a impunidade, afrontou a honra das crianças ultrajadas e permitiu que o fato se repetisse em outros locais.

O segundo erro da Igreja foi não buscar a punição dos culpados, afastando-os de imediato das funções e entregando-os às autoridades. Esse corporativismo de cumplicidade também arranha a imagem da Igreja. A punição exemplar serviria como desestímulo à continuação dos delitos. A omissão permitiu que a prática continuasse, sob o manto do sigilo e da impunidade.

Nesse debate, não está em jogo a Igreja como instituição. Isso pode acontecer com qualquer tipo de organização e com qualquer comunidade religiosa. A tradição secular da Igreja Católica ou o peso da autoridade papal não dão direito a autoridades eclesiásticas de se omitirem, quando há crimes, principalmente contra crianças. Não é porque agora se desvenda a verdade - por 60 anos mantida sob o tapete – que a Igreja se tornou menor e enfraquecida perante os fiéis. Mas pela forma como administrou os abusos, agora denunciados por ex-alunos e até por outros religiosos, que a sociedade cobra postura mais transparente.

Os deslizes e crimes cometidos por religiosos, se de um lado desgastam a imagem da Igreja, de outro não desqualificam sua importância histórica, nem seu valor como instituição. Como em qualquer organização, os “pecados” das “ovelhas negras”, para usar uma máxima do evangelho, não representam a verdadeira face da igreja Católica. Os padres pedófilos são a contrafação de pessoas como Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, S. João Bosco, Santa Terezinha, João XXIII, D. Paulo Evaristo Arns e tantos outros religiosos que escreveram uma belíssima página na história da Igreja. Mas não é a doutrina nem o capital religioso e social que estão sob a mira, mas atos de gestão, omissões, que degradaram vítimas inocentes.

Não há por que a Igreja ter pruridos para abrir a caixa preta, contar a verdade e expor os culpados. O que as instituições não podem, e isso vale também para as igrejas, é compactuar com a impunidade quando alguém escorrega. Até agora a Igreja tergiversou. Descaracteriza as denúncias como ataque ao Papa ou à Instituição. A imprensa só cumpre o seu papel em não escondê-las. Será muito pior para a imagem da Igreja persistir qualquer tipo de nódoa na forma como administra essa crise. O prejuízo de imagem e o desgaste com milhões de fiéis será muito pior.

FOLHA DO SUL - Edição de 3 e 4/04/10

Vítimas do amianto pressionam pelo banimento

Nas próximas semanas, a Câmara dos Deputados deverá votar resolução sobre o banimento do amianto no Brasil. O tema polêmico se arrasta há anos, sob o argumento de que o negócio do amianto movimenta um mercado de R$ 3 bilhões e responde por milhares de empregos no país. A Câmara está dividida quanto à questão, pela pressão dos fabricantes e por questões econômicas. O banimento foi sugerido pelo grupo de trabalho que há três anos estuda o problema.

Durante a votação, trabalhadores de diversas regiões do país, vítimas do amianto, irão a Brasília para pressionar o Congresso a aprovar o banimento total do amianto. A princípio, não deveria haver polêmica em torno de um produto comprovadamente tóxico, prejudicial à saúde dos trabalhadores e seus familiares.

O amianto é proibido em mais de 50 países. O material de baixo custo é utilizado em construções populares, caixas d’água e outros recipientes. Durante muitos anos nos acostumamos a usá-lo como um grande avanço em relação ao perigoso zinco nos telhados. Contra o amianto pesa a morte de 100 mil pessoas por ano em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. A fibra do mineral é altamente tóxica, acabando por condenar à morte prematura trabalhadores que ficam expostos ao pó exalado nas minas onde ele é extraído. A doença chama-se asbestose.

Embora se conheçam as consequências devastadoras da exposição ao amianto para os trabalhadores, os sinais demoram a aparecer, caracterizando-se como uma doença silenciosa, lenta, mas que leva à morte. Antes da aposentadoria a maioria dos trabalhadores já se acha incapacitada para o trabalho, com sérios problemas nos pulmões. “O amianto é o agente ocupacional, que se relaciona, individualmente, com o maior número de mortes e casos de doença no mundo inteiro. É o agente que mais casos de óbitos gerou até hoje, individualmente”, segundo o pneumologista Eduardo Algranti, da Fundacentro.

A maioria dos trabalhadores incapacitados hoje foram os que manipularam o produto na década de 70, quando a produção era mais intensa. Eles foram abandonados e nunca receberam assistência dos antigos empregadores. As empresas comercializadoras respondem que atualmente conseguem extrair o produto com segurança e absoluto controle. Hoje, o amianto tipo crisotila é extraído no Brasil apenas em Minaçu, interior de Goiás. É a maior mina da América Latina e a terceira do mundo.

Empresários reagiram à proposta do banimento com ampla campanha publicitária. Tentavam desmistificar os malefícios do produto. Apegaram-se ao número de empregos gerados e esqueceram de falar sobre as doenças registradas. Argumentaram também que vários países exploram o amianto, sem problemas. É um poderoso lobby que não está disposto a ceder, ainda que à custa da saúde dos operários. A polêmica é semelhante à do cigarro. Embora muitos países tenham aprovado severas restrições aos fumantes, persiste a polêmica sobre a proibição total, embora se saiba que o cigarro é responsável por milhões de mortes por ano no mundo.

O governo está dividido. Alguns ministérios econômicos defendem o uso controlado do amianto, enquanto os das áreas de trabalho, saúde e meio ambiente são a favor do banimento.

Uma vez comprovado que o produto é tóxico, não há porque ficar protelando uma decisão já adotada em outros países, entre eles, na América do Sul, Argentina, Uruguai e Chile. Ao alegar razões econômicas, certamente o lobby da indústria não levou em conta no cálculo as despesas da saúde pública no Brasil com as vítimas do amianto, fadadas a passar sua aposentadoria num hospital.

Se existe comprovação dos malefícios do produto ao organismo humano, por que permitir sua exploração e comercialização? Isso apenas empurra o problema para o futuro. Enquanto isso, milhares de trabalhadores podem continuar, por fatores econômicos, vítimas do apetite de um pequeno grupo de multinacionais. Espera-se que o Congresso Nacional cumpra a sua parte.

FOLHA DO SUL - Edição de 27 e 28/3/10

As vítimas inocentes da vida competitiva

A exposição midiática do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jabobá, acusados do assassinato da filha de Alexandre, Isabella, suscita um amplo debate sobre como tratamos nossas crianças, as principais vítimas dos desajustes pessoais e familiares. Vai do extremo do caso Isabella, até o ato-falho de esquecer um filho dentro do carro, como aconteceu em S. Paulo no fim do ano passado. Passa por crianças abandonadas por mães solteiras, pelas agressões de pais e padrastos, até o assédio sexual por pais, parentes próximos e amigos.

A morte de Isabella sempre recebeu ampla cobertura da mídia, porque se trata de um caso chocante, com família de classe média alta de S. Paulo. Mas se a imprensa andar pela periferia das cidades, certamente encontrará dezenas de casos tão ou mais escabrosos quanto o de Isabella.

O que está acontecendo na sociedade do século XXI para os pais chegarem ao extremo de se livrar de filhos, sob a pressão de problemas familiares, ou até esquecê-los dentro dos carros, como se fossem objetos, levando-os à morte?

Lamentavelmente, o que se vê são pais e padrastos transformados em carrascos, se não assassinos, de crianças a quem lhes compete cuidar e proteger. Como é possível a mãe ou o pai, as pessoas mais indicadas para anjos da guarda dos filhos, esquecê-los no carro? Ou serem suspeitos de terem arremessado uma menina indefesa pela janela?

As causas dessas tragédias são muitas. Desestruturação familiar, competição profissional, ausência dos pais, excesso de atividades, stress. Várias respostas. Mas na roda-viva do profissional moderno, cuidar e proteger os filhos, valor tão caro e nobre no passado, virou "comodity". Entrou no rol das rotinas diárias, como se fosse ir ao supermercado ou ao cabeleireiro.

Será que a pressão e os apelos da vida moderna nos transformaram em robôs competitivos, a ponto de estarmos trocando o que há de mais precioso na vida por reuniões improdutivas, longas jornadas de trabalho, viagens ou baladas? Ou, para não perdermos a corrida do prestígio, da promoção e de melhores salários, estamos abdicando de uma relação mais estreita com os filhos?

A falta de explicação racional para a violência perpetrada contra Isabela e todas as crianças das quais a menina é o símbolo, escancara uma triste realidade para os tempos modernos: não sabemos cuidar ou o que fazer com nossas crianças. Isso vale para pais e mães, muitos ainda despreparados para a paternidade, e inclui autoridades públicas e políticos, que desperdiçam recursos em obras inúteis e não mantêm programas de prevenção e de apoio a crianças vítimas de violência.

A violência ou o descaso contra crianças, em grande parte decorre da extrema dificuldade de administrarmos as rotinas pessoais, num mundo extremamente competitivo. Assim, a busca da eficiência, cumprimento de metas, cargos e promoções tornam-se uma obsessão. A família, antes ponto de convergência das emoções e aspirações, passa a ser apenas mais um item na agenda.

O resultado vemos nos casais que terceirizam a paternidade, entregando a educação e a criação dos filhos para creches, titias, escolas, babás e empregadas domésticas, abrindo mão de conviver e crescer com eles, numa das fases mais bonitas da vida. Ou seja, abdicam de valores que não têm preço. Sem perceber, aos poucos esses pais vão perdendo os próprios filhos dentro de casa. Quando não, pressionados por casamentos desfeitos, brigas domésticas ou a bebida, transformam-se em algozes.

Estamos tão preparados para enfrentar crises profissionais, nos precavemos tanto para ter segurança, presente e futura, com planos de saúde, previdência, poupança e seguros. Ao nos deixar envolver pelos apelos e pressões da vida competitiva, trocamos a missão principal de pais e educadores pela de profissionais brilhantes, reconhecidos e competentes. Será que está valendo a pena? Não seria a hora de repensar nossas prioridades, enquanto é tempo?

FOLHA DO SUL - Edição de 13 e 14/3/10

O limite para sustentar a pobreza

Em 1960, cerca de 5% das famílias britânicas recebiam algum tipo de subsidio do governo. Em 2009, o percentual chegou a 29%. No momento que antecede a eleição do novo gabinete, os ingleses estão no meio de um debate. Quanto custa essa conta aos cofres públicos, com benefícios que só aumentaram ao longo do tempo, sob a política protecionista do partido trabalhista.

O debate veio à tona durante a atual crise econômica, pelo peso dos benefícios na conta do contribuinte britânico. O imposto de renda, hoje, é de 40% sobre qualquer rendimento, para ganhos anuais acima de 37 mil libras. A partir de 1º de abril, vai subir para 50%, para quem recebe mais de 150 mil libras/ano. Daí por que os ingleses questionam por que pagar conta de saúde, escola, licença-maternidade e remédios para mães solteiras, filhos de pais separados ou órfãos, imigrantes regularizados, mais seguro desemprego, enfim, uma lista de benefícios que chocaria os críticos do bolsa-família no Brasil.

Esse debate é bom no momento em que o Brasil entra no período eleitoral. Certamente virão à tona questões complicadas. Uma delas a polêmica do Bolsa Família. Existe um grande segmento da população brasileira que questiona a elevada carga tributária, em contraposição aos programas de cunho assistencialista, que beneficiam famílias em situação de pobreza. A quantidade de penduricalhos que foram se somando à chamada bolsa-escola, criada no governo anterior, e vitaminada no governo Lula , fez o bolo crescer. Hoje o bolsa-família tem 11 milhões de beneficiários, o que significa, num cálculo otimista, cerca de 40 milhões de pessoas de baixa renda. Ou seja, um em cada cinco brasileiros é beneficiário do bolsa-família

Essa é uma polêmica que vai a dois extremos: os radicais, que não admitem dividir o bolo da riqueza com quem não teve as mesmas oportunidades. Até os que defendem a extensão dos benefícios tanto em valor, quanto no número de famílias, como forma de reduzir ainda mais as desigualdades de renda. Estes não admitem que o Bolsa Família seja um programa assistencialista.

A inapetência do governo atual e até da oposição para discutir esse assunto joga para frente uma perigosa bola de neve que mais cedo ou mais tarde o país terá que discutir. É muito comum a família abdicar de trabalhar para manter as exigências de continuar recebendo essa "mãozinha" do governo. Mereceu comemoração e até cumprimentos do presidente Lula quando uma mãe devolveu o cartão do Bolsa Família, porque havia arranjado um emprego melhor. Pena que o gesto foi apenas a exceção. A prática tem mostrado que o programa só cresce, com cortes apenas compulsórios.

Mesmo os críticos do Bolsa Família admitem os méritos do programa, que tirou da pobreza milhões de pessoas. A progressiva extensão do benefício impediu pais de abandonaram os lares, melhorou a frequência escolar e o poder da mulher na família, além de elevar o padrão alimentar. O programa é a grande vitrine do governo Lula e tem seus méritos inegáveis, reconhecidos até mesmo no exterior. Embora tenha reduzido a pobreza, o Brasil ainda é o 11º em desigualdade no mundo. Mas a pergunta básica não consegue ser respondida: qual a porta de saída dessas pessoas, para que possam se libertar da dependência ao longo do tempo? Recentemente o governo fez uma "limpeza" nos beneficiários e retirou 700 mil famílias do programa. Mas para os que continuam recebendo, qual a perspectiva de abdicarem do Bolsa Família, porque conseguiram emprego ou renda suficiente para se livrar da ajuda oficial?

Todo programa que utiliza recursos públicos, assistencialista ou não, um dia vai ser cobrado por quem paga a conta. É bom não esquecer o conselho do Nobel da Paz, o bengalês Muhammad Yunus: "Qualquer programa assistencialista deve permitir que as pessoas se tornem independentes em cinco ou dez anos". Se o dinheiro do contribuinte custeia essa conta, mais cedo ou mais tarde será preciso tocar o dedo na ferida, até porque esses recursos são finitos. É isso que os ingleses estão agora perguntando. Por que precisam garantir com mais imposto de renda tantos benefícios para quem não trabalha? Não estaria na hora de o país se debruçar sobre essa questão, antes que seja tarde?

FOLHA DO SUL - Edição de 6 e 7/3/10

A crise de Brasília escancara o patrimonialismo na política

* João José Forni

A crise que assola o governo do Distrito Federal é apenas a face mais visível do que acontece de modo geral em todo o Brasil. Infelizmente, não é a exceção. O rol das denúncias de corrupção no país, envolvendo governantes e políticos, do Amazonas ao Rio G. do Sul, apenas confirma o patrimonialismo impregnado nas entranhas do poder, a ponto de criar o estereótipo de que política e corrupção são irmãs siamesas.

Relações incestuosas entre governantes, políticos, empresas privadas e públicas transformam o país num grande condomínio, em que os poderosos, que ocupam o poder a cada quatro anos, têm o controle absoluto das contas públicas. Aproveitam-se da condição de donos da chave do cofre para abrir dutos suspeitos por onde escoa o dinheiro público para financiar campanhas ou incrementar patrimônio privado.

Arruda e seu governo é o capítulo atual e mais escancarado de uma infeliz saga que pontua a história do Brasil e de outros países, principalmente, da América Latina. A permissividade com o dinheiro público acaba permeando toda a máquina, do tubarão ao bagrinho. O cargo público ou o mandato se transformam numa permanente troca de favores ilícitos, quando ninguém vê impedimento ético tanto em pedir uma passagem de graça ao fornecedor, quanto compensações milionárias a empreiteiras e empresários.

A crise de ética e vergonha, para usar uma palavra que todos entendem, contaminou a máquina do poder, a ponto de hoje passar a idéia de que para governar, é necessário transgredir. Corre-se o risco de lamentavelmente admitir que ser honesto acaba sendo um estorvo para o governante seguir adiante. Ou seja, no imaginário das pessoas, o homem público em cargo de confiança, se não prevaricou, estaria em vias de escorregar, cooptado pelo sistema. Nada mais pernicioso para a cultura de um país.

Muda-se o governo, não mudam os costumes. Pelo contrário, alguns aprimoram o modus operandi, como aconteceu em Brasília. Pessoas com passado nada ilibado, enroladas em denúncias, mas eficientes na captação de dinheiro e nas relações promíscuas com empresários, acabam se perpetuando no poder, assumem cargos de confiança, mais pela capacidade de agir nas sombras do que pela eficiência administrativa.

Afinal, qual é a genética ou DNA da corrupção, que iguala empresários, políticos, funcionários públicos e os transforma em agentes corruptos, com eficientes máquinas aparelhadas para ter o controle absoluto de todos os cargos e atalhos que levam até o caixa. Que valores movem essas pessoas?

Não adianta culpar a política de interiorização do Brasil, que levou à construção de Brasília, pelas mazelas dos políticos que povoam o noticiário nacional. Juscelino não tem nada a ver com isso. Colocar a culpa nas costas da Capital é apenas uma reação saudosista de viúvas da antiga capital no Rio de Janeiro e da desfaçatez de personagens que não nasceram em Brasília. Eles chegaram lá com os vícios de seus estados de origem. Culpar Brasília e sua população pelas falcatruas de quadrilhas instaladas nos nichos públicos, é querer simplificar as coisas. Como se a manutenção da capital no Rio, pudesse transformar corruptos e corruptores em vestais.

O Brasil está precisando de um choque de honestidade. Não é possível todos os dias descobrir-se uma quadrilha que inventa alguma forma original de se apossar do dinheiro público, como aconteceu agora com uma gang que desviava auxílio-creche na Câmara dos Deputados. Só que a iniciativa deveria partir dos detentores do poder. Mas eles não têm nenhuma pressa de mexer nesse vespeiro. Enquanto isso, prepare-se. Até 30 de abril todos devemos prestar contas ao Leão. Afinal, alguém tem que garantir o saldo dessa conta sem limites que, infelizmente, políticos e governantes inescrupulosos tentam transformar em patrimônio privado.

*Jornalista, Consultor de Comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E-mail jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 27 e 28/02/10

A saúde no Brasil continua muito doente

Imagine você, usuário de plano de saúde, solicitar hoje uma consulta e a atendente informar que seu pedido foi marcado para outubro. Sim, outubro, daqui a oito meses. Como você reagiria?

Pois saiba que no Brasil existe um grande plano de saúde, do qual todos os brasileiros participam, mas que padece de falta de recursos e da falta de atenção das autoridades. O médico recomenda à paciente procurar um neurologista. Depois de três horas de espera, ela é informada que a consulta pode ser marcada, mas para outubro. Será que alguém no Ministério da Saúde poderia explicar para um contribuinte doente, muitas vezes grave, semelhante disparate? Infelizmente essa é a rotina nos nossos postos de saúde e hospitais públicos. Não faz muito tempo a imprensa denunciou em Porto Alegre um esquema político para internação de doentes no hospital. Havia até pistolão para internações pelo SUS. Acredite.

Pois é. Governos em época de eleição gostam de apregoar aos sete ventos suas realizações. O governo Lula até inovou, criando o mote “nunca antes neste país”, para afirmar que o Brasil começou a funcionar depois de 2003. Descontado o exagero e a pretensão histórica, que parecem ter-se agravado em ano eleitoral, não há dúvidas de que o governo atual fez o país avançar em muitos aspectos, na esteira do que foi feito por governos anteriores.

Mas um dos grandes gargalos do Brasil atual, herança histórica e nunca resolvida, continua sendo a área da saúde. Certamente o próprio presidente admite isso. Educação e saúde deveria ser a plataforma eleitoral de qualquer governante. Nesse binômio deveriam se concentrar grandes esforços enquanto estivesse no poder. Sabemos que saúde, principalmente, não é uma área fácil. Basta ver o esforço de Obama para aprovar o Programa de saúde, num país com um nível de renda altíssimo, mas onde 31 milhões de americanos não participam dos planos públicos de saúde.

E aqui? Avançamos em políticas de prevenção, mais pessoas têm acesso a medicamentos, principalmente genéricos e erradicamos várias doenças com programas de vacinação. Mas no início de 2008, muitos brasileiros morreram de dengue, sem assistência, porque os governos federal, estadual e municipal acordaram tarde para a epidemia e ficaram brigando para saber quem deveria ser o carrasco do mosquito. Resultado: centenas de mortes.

A saúde no Brasil não consegue sair da UTI em que entrou há muitos anos. Brasileiros madrugam em tórridas ou frias manhãs para enfrentar a fila de postos de saúde pelo país todo, tentando marcar exames e consultas, sem esperança de data e de atendimento, porque faltam médicos. Doentes graves precisam de muita sorte para conseguir atendimento a tempo de tratar a doença. Ou seja, apesar de ser campeão em pagamento de impostos, o brasileiro sem o privilégio do plano de saúde privado - a maioria – continua no calvário das filas de exames e consultas.

Nos hospitais públicos, cenas de guerra, de improvisação e de falta de equipamentos modernos nivelam o Brasil aos países pobres do terceiro mundo. É muito louvável o governo estar preocupado em expandir a banda larga para todas as escolas públicas, programa, aliás, bastante polêmico. Ou ter idéias malucas como dar um celular para cada pessoa de baixa renda – a bolsa-celular.

Por que não curar essa chaga da saúde pública no Brasil? Contratar mais médicos, funcionários e equipar melhor os postos de saúde e hospitais públicos, como forma de resolver a agonia de milhões de brasileiros que esperam meses por uma simples consulta ou para marcar uma cirurgia. È justo e aceitável, em pleno século XXI, dizer para uma mãe, precisando marcar consulta preventiva para o filho, que ela volte somente em outubro com a criança?

FOLHA DO SUL - Edição de 20 e 21/02/10

Armadilhas e caprichos da rede global

* João José Forni

Na semana passada, um juiz da Flórida anulou a suspensão de um aluno, que havia ofendido o professor com mensagens postadas na rede social Facebook. Segundo o juiz, a primeira emenda da Constituição americana garantiria ao aluno o direito à liberdade de expressão. Como a crítica foi fora da escola, não caracterizaria uma falta grave que justificasse a expulsão. A escola prometeu recorrer.

A decisão suscita um amplo debate sobre os limites de utilização da internet como uma mídia livre para expressão das opiniões, mesmo que seja para atacar adversários políticos ou desafetos como o professor, o vizinho, o concorrente e até os namorados. A Justiça, pelo menos no Brasil, ainda reluta em tomar decisões, porque a velocidade da mídia eletrônica parece ter surpreendido até mesmo nossos juízes. Existem sentenças, quando frontalmente a internet é usada para calúnia, difamação ou exposição degradante. Por enquanto, na falta de lei específica, a Justiça tem utilizado a legislação que se aplica à mídia tradicional.

Mas no caso do aluno, abre um perigoso precedente. Sabemos que hoje já não existe muito respeito pelo professor. No Brasil, não bastasse a degradação da profissão, com baixos salários, excessiva carga de trabalho, insegurança e falta de planos de carreira, as mudanças culturais, aliadas a uma nova visão dos direitos das minorias, favorecem o confronto e até o desrespeito dos discípulos contra seus mestres. Por isso há um desencanto com a profissão. Poucos alunos no ensino médio se animam a cravar professor como opção nos testes vocacionais.

Não bastasse tudo isso, os alunos poderão criar páginas nas redes sociais – como já aconteceu - para questionar notas, métodos e até ofender os professores. As opiniões, que começam com brincadeiras, descambam para ofensas graves, a ponto de expor a imagem e até a carreira do profissional, tanto no ensino fundamental quanto nas universidades.

Só que há um porém. A web é hoje um implacável juiz para quem deixa suas marcas. Registros irresponsáveis, ofensas, agressões que caem na rede ficam ali gravadas, mesmo após a formatura do aluno. E as empresas de seleção estão recorrendo à internet para analisar o perfil dos profissionais. A revista The Economist publicou matéria recente em que ressalta a importância das redes sociais no processo de seleção dos profissionais. Os sites de relacionamento são considerados “uma forma inteligente de contratar”.

Textos ofensivos, artigos, fotos comprometedoras e outras inserções são levadas em conta pelas empresas de seleção. Uma ofensa ao professor pode ser o primeiro indício de que esse profissional amanhã poderá também postar impropérios contra diretores ou colegas da empresa.

Recentemente um aluno da UFMG foi questionado em seleção para uma multinacional, porque anos antes ele havia entrado com processo contra um professor, questionando uma nota. A ata da universidade foi publicada e caiu no Google. As empresas não querem se incomodar com candidatos que expõem processos ou mazelas internas na web, vulnerabilizando a imagem da organização.

Por isso, aquelas pessoas que gostam de expor suas desavenças publicamente ou fazer brincadeirinhas com chefes, professores ou colegas devem colocar as barbas de molho. De agora em diante, além do curriculum e da experiência, a ficha corrida de tudo o que você escreveu na rede global e até mesmo e-mails enviados com pouco cuidado para amigos e empresas poderão ser decisivos na seleção para um cargo de chefia.

* Jornalista e Consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E mail: jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 13 e 14/2/10

O admirável mundo novo das redes sociais

* João José Forni

Cena 1: No ano passado, durante pouso de um vôo da empresa americana Southwest, houve um princípio de incêndio numa asa do avião. Antes mesmo que a empresa fizesse qualquer comunicado à imprensa ou às autoridades, imediatamente passageiros dispararam mensagens pelo Twitter e a informação se espalhou na rede.

Cena 2: Na empresa, um chefe de mais de 50 anos olha para o lado, em pleno expediente, e vê o jovem funcionário fazendo contato nas redes sociais, trocando mensagens, e logo depois falando ao celular. Vai ficar tentado a enquadrá-lo nos rígidos padrões disciplinares da empresa.

Acostume-se. O mercado está diante de um mundo novo, que mudou radicalmente as relações de trabalho e as formas de comunicação. A geração que nasceu dentro da internet não pensa com os mesmos bits da geração antiga. Isso não significa que o chefe deve aturar o funcionário abrindo e-mails pornográficos ou enviando SMS para a namorada e os amigos em pleno expediente. Mas a resistência às novas tecnologias e a um novo tipo de empregado ou de cliente, ligado o tempo todo on line, tem que ser revista, sob pena de afetar os negócios da organização.

Segundo pesquisa da consultoria Manpower, 55% das empresas brasileiras têm políticas de controle de acesso a redes sociais. A média mundial é de 20%. O Brasil, portanto, é mais conservador, sendo a área de finanças a mais rígida nesse controle. Talvez porque no país ainda não exista uma cultura que encare as redes sociais e a própria internet como canal estratégico de negócios.

Depois da febre do Orkut, mais recentemente a onda do Facebook e do Twitter acendeu nas empresas um sinal de alerta. Quem estiver fora das redes sociais, insistir em ignorá-las, pode estar perdendo negócios e mercado. Logo será ultrapassado por quem aderiu às novas mídias.

Até junho do ano passado apenas 15% do mercado brasileiro estavam contectados no Twitter e 2% dos usuários vinham do Brasil. Agora, na mais recente pesquisa, os usuários brasileiros representam 8,8% do total, o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos EUA, à frente da Inglaterra (7,2%), Canadá (4,3%) e Alemanha (2,5%). Não há como ignorar essa realidade.

Mas o olhar desconfiado dos empresários não é apenas pela ameaça à produtividade. Tem a ver com risco. Eles estão mais receosos de crises de reputação por conta da web. Vai desde vazamento de documentos, e-mails, invasão de hackers até à violação de segredos industriais. Assim como é uma porta para um mundo de negócios incalculável, pode ser também a antessala de uma crise de grandes proporções.

Mas todo o avanço tecnológico se, por um lado, facilita, também implica riscos. Precisa haver controles eficientes, para evitar vulnerabilidades, e uma política na empresa voltada para as novas mídias. Se a organização tiver interesse em manter e conquistar clientes jovens, não pode virar as costas para as redes sociais e abdicar desse público e dos negócios que possam ser gerados no segmento que mais cresce no país.

Há um consenso hoje de que coibir o acesso à internet e, por consequência, às redes sociais pode ser mais prejudicial para a empresa do que saber administrá-lo. Depois do sucesso de Obama, muitas empresas já demonstraram na prática como utilizar Twitter, You Tube ou Facebook para criar uma onda de adesão a produtos ou campanhas específicas. Talvez a estratégia nesse caso deva ser igual àquela utilizada por empresas de ponta, quando descobrem um hacker esperto e perigoso. Resolvem contratá-lo. É melhor tê-lo a seu lado do que tramando contra elas nos bastidores. Isso vale também para as redes sociais e seus jovens viciados em tecnologia digital. Se não podemos mais viver sem elas, por que não aproveitá-las para incrementar os negócios?

* Jornalista e Consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E-mail: jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 6 e 7/2/10

Ligações perigosas entre mídia e poder

* João José Forni

As relações entre imprensa e poder sempre foram difíceis. Desde que a imprensa, se transformou em instrumento de opinião independente, os governantes tentam controlá-la. Não podemos esquecer que o jornal foi a primeira mídia de massa, após a revolução protagonizada pela prensa de Gutenberg. Passou o tempo, outras mídias surgiram, mas os governos não conseguem se acostumar. Insistem em discordar, tentar interferir, cooptar pelo apoio financeiro, para pressionar jornalistas, editores e os próprios empresários de comunicação. Ou então usam a força mesmo, com censura, prisões e fechamento.

O papel da imprensa ainda continua mal interpretado por certos governantes. O presidente Lula afirmou certa vez que não lê jornais, nem assiste noticiários, porque o jornalismo lhe faz mal ao fígado, a imprensa informa mal ou deturpa as notícias, preferindo as informações repassadas por assessores, que seriam mais fidedignas. É uma forma de ver o mundo, pelo olhar cor-de-rosa dos áulicos.

Essa visão equivocada da imprensa parece ter contaminado governantes da América Latina, sem esquecer Irã, China, Coréia do Norte e outros, que têm aversão à verdade. Aqui mais perto, o folclórico presidente Hugo Chávez, da Venezuela, faz gatos e sapatos para impedir críticas da imprensa livre. Ele quer se perpetuar no poder com a república bolivariana e acredita que a imprensa tenta impedir.

Enfrentando uma crise sem precedentes, com escassez de alimentos, racionamento de energia, inflação alta e protestos, resolveu se voltar para quem dá a notícia. Fechou seis canais de TV a Cabo, entre eles o mais popular da Venezuela, a RCTV. Persegue jornalistas e estudantes, que gritam na ruas. Deve ficar muito feliz quando assiste às tevês oficiais com as “boas” notícias de seu governo. Não tem muita diferença da China, que censura sites e notícias da internet. A última investida chinesa foi contra o Google e o gmail, invadidos por hackers, ao que tudo indica patrocinados pelas autoridades do país.

Na Bolívia e no Equador, o cenário não é muito diferente. Os discípulos de Chávez, sempre que as coisas não vão bem, culpam a imprensa por mobilizar as massas e estimular protestos. Para completar, Cristina Kirchner, na Argentina, depois de crises contínuas no governo e ver ameaçada a possibilidade de se manter no poder, resolveu brigar com o grupo que controla o jornal El Clarín, além de outros meios de comunicação. Abriu uma guerra particular com os proprietários do grupo.

A visão equivocada dos governantes sobre a imprensa não significa falta de cultura midiática. Governos, tanto de direita quanto de esquerda, não gostam de ser fiscalizados. A imprensa é um freio para os desvios de conduta, suas liberalidades e arroubos de perpetuidade. Nos EUA, o partido Republicano elegeu a mídia o inimigo número 1, na campanha de Obama, porque batia no presidente Bush. Berlusconi vive brigando com a imprensa italiana e Sarkozy, que não é bobo, aprovou um pacote de US$ 777 milhões de apoio financeiro aos grupos de comunicação.

Thomas Jefferson, o grande mentor da independência americana, queixou-se certa vez de que a imprensa se alimentava “como os lobos, do sangue dos cordeiros”. Mas ele disse também que, se tivesse de escolher entre um governo sem jornais e jornais sem governo, não hesitaria em ficar com a última opção. É melhor aprender a lidar com a mídia, do que ficar brigando para que ela não cumpra o seu papel.

* Jornalista e Consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E-mail: jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 27 e 28/01/10

Preço do livro impede que brasileiros leiam mais

* João José Forni

Muito se tem falado sobre o hábito de ler do brasileiro. Apesar das comemorações da indústria livreira nos últimos anos, estamos longe de ser um país de leitores. O brasileiro lê em media 1,3 livros por ano. Quando incluímos as obras didáticas e pedagógicas, o índice sobe: 4,7 livros por ano. No Sul, essa média é de 5,5 livros. Muito baixa para os padrões internacionais. Afinal, quais as causas que fazem o brasileiro passar tão longe das bibliotecas ou livrarias? Ou seria o contrário? As bibliotecas e livrarias estariam distantes e inalcançáveis para os leitores?

Pesquisa do Instituto Pró-livro, de 2008 (última disponível), mostra que 55% dos brasileiros são adeptos da leitura frequente. Das 95,6 milhões de pessoas que diziam ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses, 55% eram mulheres e 47% pertenciam à classe C. Os jovens eram os que mais gostavam de ler e, na região Sul, 75% disseram ler com freqüência. Entretanto, 45% dos brasileiros afirmaram não ter lido um livro sequer nos últimos anos.

Não é difícil apontar as causas para o nosso baixo índice de leitura. Primeiro, falta estímulo à leitura por parte de pais e professores. As pesquisas apontam: crianças lêem mais, quando os pais também são leitores e têm facilidade de acesso aos livros. O exemplo começa em casa ou na escola. Para o escritor Fernando Bonassi, “Quem forma leitor é a escola. Não se forma leitor com professor ganhando R$ 600,00 na metrópole mais rica da América Latina. Esse professor não lê porque não pode comprar livros. É ele que tem que ser educado, antes de mais nada”, afirmou.

Segundo e principal fator: o preço. O livro no Brasil é caro. Apesar de entrevistas e declarações ufanistas, com programas de apoio à edição de livros, a verdade é dura e precisa ser encarada. O preço do livro no Brasil expurga a maioria da população, principalmente das classes C, D e E. Com isso, alimenta-se a pirataria: reprodução de cópias de livros ou leituras superficiais, na “enciclopédia Google”.

Os livreiros apostam nas feiras para incrementar as vendas. Feiras de livros podem ter seus méritos. Mas não resolvem o problema. A maioria dos frequentadores vai nos fins de semana mais para se divertir, manusear os livros e participar de promoções. E não para comprar ou estimular o hábito de leitura. Grande parcela da população visita e fica só na vontade de comprar, porque não tem condições financeiras. Livro não é artigo de primeira necessidade. É considerado ainda artigo de luxo.

Os preços praticados nas feiras, como raríssimas exceções, são os mesmos das livrarias. Não raro, acima dos encontrados nos sites das editoras. Não existe também uma política de estímulo a alunos e professores, porque eles não têm direito a desconto na compra de livros.

Quando se pergunta para as editoras por que o livro no Brasil é caro, justificam pelo baixo número de leitores. O que implica tiragens pequenas. Com distribuição ruim e poucas bibliotecas, as vendas não estimulam tiragens maiores e, portanto, com custos mais baixos. Europa e Estados Unidos oferecem livros bem mais baratos, porque as tiragens são grandes. Um livro sai editado no Brasil com 2 mil exemplares. O mesmo livro na Europa não tem menos de 10 mil exemplares e vende todos. Por isso o custo fixo por exemplar no Brasil é elevado.

O resultado de tudo isso é a triste constatação da pesquisa, quando perguntou ao entrevistado o que você gosta de fazer no seu tempo livre. 77% assistir televisão; 53% ouvir música: 50% descansar; 39% ouvir rádio e só 35% ler. É uma pena.

A controvérsia não coloca mais livros na mão de crianças e adolescentes. Com isso, continuaremos nesse círculo vicioso pelo menos nos próximos anos. O preço não baixa, porque se vende poucos livros. E continua se vendendo pouco, porque o preço é muito elevado. Mais uma originalidade brasileira.

FOLHA DO SUL - Edição de 23 e 24/01/10

Quem são os verdadeiros heróis

* João José Forni

A última semana foi emblemática para o Brasil ter uma dimensão de como se constroem heróis no país. Corremos sério risco, no mundo midiático em que vivemos, de confundir os valores e transformar artistas, políticos e personagens da telinha em heróis. Ancorados em programas nos principais canais de televisão, um grupo de aventureiros se presta a saciar o voyeurismo dos telespectadores, se expondo ao ridículo. De Brasília, vêm imagens chocantes de políticos discutindo como repartir ou guardar o botim com o dinheiro público do Distrito Federal.

Os noticiários de TV também nos remetem à crua realidade do mundo dos crimes, catástrofes e tragédias, como o terremoto no Haiti. No meio do caos e das cenas dramáticas de um povo que não tinha mais nada para perder, sobressaiu a atuação dos militares brasileiros. Estes sim, os verdadeiros heróis do país. Longe das famílias e vivendo numa terra sem as mínimas condições de conforto, eles dão dignidade ao Brasil. Levam um pouco de esperança e paz a um povo explorado e massacrado desde o século XIX.

Aqui, a TV nos empurra programas simplórios, que vivem de fofocas e bisbilhotar performances pessoais pouco exemplares, em horário nobre, como se a sociedade não tivesse coisas mais sérias para se ocupar. Além de ter-se apropriado do personagem de George Orwell, ainda temos que aturar o apresentador do big-brother tupiniquim, chamá-los de “nossos heróis”. Heróis de quem?

Os políticos posam de vítimas, depois de terem sido pegos no flagrante. E mais: sem qualquer constrangimento, lutam para se manter no cargo e ludibriar a justiça. Esse big brother do dinheiro nas meias é tão deprimente quanto o outro, que alimenta uma audiência sequiosa de cenas e diálogos de baixo nível. Entre a desfaçatez de uns e as bobagens de outros, quem perde é o telespectador brasileiro, que não tem para onde correr.

Não se sabe o que é mais chocante. Se as baboseiras expostas em discursos vulgares e limitados dos protagonistas da “casa”. Ou as cenas dos ladrões de colarinho branco, eleitos para governar e legislar e não para roubar. Ainda bem que temos o contraponto, para desmistificar esses heróis de araque, que saem dali para páginas de revistas masculinas ou femininas, para alimentar o círculo vazio da indústria cultural de celebridades fabricadas. Ou, no caso dos políticos, circulam nas festas da corte e nas rodas oficiais com a mesma cara de pau com que aparecem nos vídeos guardando o dinheiro na cueca ou nas meias.

Minutos antes, os programas jornalísticos nos mostram os heróis de fato, dentro e fora do país. Como Zilda Arns. Não satisfeita com tudo o que fez aqui, nos últimos 30 anos, para reduzir a mortalidade infantil, estava lá, no exterior, transmitindo ensinamentos para amenizar o calvário de populações pobres. Ao lado dela, meninos que entraram no Exército e resolveram abraçar uma empreitada difícil, levados por um ideal, em busca de crescimento pessoal e profissional. Lamentavelmente, foram colhidos pela tragédia e entram precocemente para a galeria dos heróis nacionais.

É incrível o paradoxo da mídia eletrônica. De um lado escancara as aventuras nada edificantes de um grupo de políticos, metendo a mão no dinheiro do contribuinte, além das disputas amorosas e liberalidades físicas do grupo confinado que faz qualquer coisa para aparecer. De outro, é também a janela por onde conseguimos conhecer a verdadeira dimensão do trabalho dos jovens heróis brasileiros, que não tiveram tempo de contar sua história para pais, esposas, filhos ou netos.

* Jornalista e Consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E mail: jforni@terra.com.br

FOLHA DO SUL - Edição de 16 e 17/01/10

Turismo brasileiro empaca no amadorismo

* João José Forni

Você sabe quantos turistas estrangeiros a França recebe por ano? E os EUA? Espanha? México, para falar num país latino? Anote: 80, 58, 57 e 22 milhões. É muito? Pois o Brasil mal consegue 6 milhões de visitantes. É o mesmo número de Cancún, região inóspita, que o México transformou num dos destinos mais disputados das Américas.

Mas por que o Brasil com litoral de sol deslumbrante, diversidade climática e belezas naturais incomparáveis não consegue deslanchar no turismo? Simplesmente porque não sabe fazer turismo. Recebe mal os visitantes, não desfaz a imagem de violência e atraso e atende de forma amadora. A começar pelos aeroportos.

Em dezembro, no meio do caos em que se transforma o aeroporto de Guarulhos, o maior do país, um americano se desesperava para saber qual das quatro filas da Tam ele deveria pegar. Não achava quem falasse inglês e não conseguia se comunicar. É possível num aeroporto internacional não aparecer um funcionário que falasse inglês? No Brasil é.

Se o turista internacional não tem apoio, o que sobra para o brasileiro? Florianópolis, tida como uma das queridinhas por turistas e aposentados, dá um triste exemplo de como não fazer turismo. 30% do visitantes vêm do RS. O aeroporto mais parece uma rodoviária. Até hoje não foi reformado pela Infraero. É esse aeroporto que recebe vôos charter da América do Sul no verão.

Na falta de pontes de embarque, o passageiro enfrenta sol ou chuva. Bela recepção. A empresa de táxi do aeroporto vende uma corrida por R$ 90,00 (US$ 53,00) para o hotel, até uma praia do norte da Ilha. Você imagina um táxi com ar refrigerado, conforto? Engano. É uma van barulhenta, sem ar refrigerado, que sacode durante 1h e 15m para chegar ao destino, no meio de um trânsito caótico. Em Nova York, uma van confortável cobra US$ 18 para ir do aeroporto, em New Jersey, até hotel em Manhattan, em 40 minutos.

As praias mais populares de Florianópolis vivem sujas, tanto a areia quanto as ruas próximas. Nos Ingleses, cinco dias após o reveillon garrafas inteiras ou cacos ainda continuavam nas calçadas, em meio ao lixo nas sarjetas e águas escuras que exalam mau-cheiro e correm nas vielas em direção ao mar. Um convite a viroses e contaminações. Quem se aventura na água? Qual a garantia de que produtos vendidos na praia não estejam contaminados?

Atropelada pelo fluxo de mais de 500 mil pessoas, que não consegue mais atender, o turismo em Florianópolis agoniza. Na praia Jurerê, a dos grã-finos e endinheirados, e em outros bairros menos nobres, faltou água em dezembro. Precisou caminhão pipa. Se você quiser fugir para alguma praia próxima, prepare-se, porque a BR 101 vive congestionada. Quem vem, não volta mais. Não quer perder tempo no trânsito. Até porque você ficará confinado ao hotel. Se quiser sair, enfrentará na cidade congestionamentos de uma ou duas horas. Esse é apenas um espelho do que acontece em outras capitais: Rio, Salvador, Recife, Brasília.

Deu para entender agora, por que não conseguimos receber mais do que 6 milhões de estrangeiros por ano? Há pelo menos dez anos escutamos promessas dos últimos governos de aumentar o fluxo de turistas. Não precisa gastar grana em publicidade, feiras ou outros eventos no exterior, apenas para funcionário público queimar diárias. Basta organizar o turismo aqui dentro, respeitar o visitante e as prefeituras cuidarem melhor das cidades que se dizem turísticas. O resto é conversa para boi dormir.

* Jornalista e consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E-mail jforni@terra.com.br.

FOLHA DO SUL - Edição de 09 e 10/01/10

Motoristas agravam a tragédia brasileira no trânsito

* João José Forni

Somente nos feriados de fim de ano ocorreram 45 mortes no trânsito do Rio G. do Sul. Em poucos estados, como RJ, MG e SP, houve redução no número das acidentes. No Brasil, foram 455 mortes. A imprudência dos motoristas sobressai como principal causa de mortes nas rodovias. Alguns motoristas estão sempre apressados, querem ultrapassar, mesmo em locais proibidos e extremamente perigosos. Um policial rodoviário de Porto Alegre definiu bem essa histeria coletiva: “As pessoas saíram ensandecidas de suas casas para viajar neste fim de ano”.

O Brasil vive uma guerra particular. Supera em número de mortes anuais as vítimas das guerras do Iraque ou Afeganistão. São mais de 40 mil brasileiros que perdem a vida todo o ano de forma violenta no trânsito, um recorde em termos mundiais. Calcula-se o número de feridos em 400 mil, muitos incapacitados ou com lesões irreversíveis. Além de comprometer a força de trabalho, porque a média de idade da maioria dos acidentados fica entre 18 e 35 anos, o número de internações onera o sistema público de saúde, prejudicando os atendimentos de rotina. Nos países desenvolvidos, a média de morte no trânsito é de cinco pessoas por 100 mil habitantes. No Brasil esse índice sobe para 19 por grupo de 100 mil, sendo superior a 20 em várias capitais.

Mas por que o trânsito é como uma epidemia a dizimar jovens na idade mais produtiva, concorrendo apenas com as drogas? Não adianta culpar a má conservação das estradas, o excesso de veículos, a falta de campanhas ou procurar outras causas. Basta viajar alguns dias por estradas brasileiros para descobrir os principais culpados dos acidentes: os próprios motoristas. Percorremos 1.500 km em estradas do RS, próximas a Bagé, dias antes do Natal. Grande parte do trecho privatizado. Paga-se um salgado pedágio, mas em compensação, o estado das rodovias é excelente. Não há buracos ou defeitos que ameacem a segurança da viagem, como em outras regiões do país. Além do piso bem conservado, em geral as estradas são bem sinalizadas. Todas de pista simples, mas seguras.

E por que os acidentes? Excesso de velocidade é a principal causa, aliado a outros abusos como não dar sinal com pisca-alerta, ultrapassagens perigosas, sair da fila de ultrapassagem sem sinalizar, dirigir com luz alta, não reduzir a velocidade na pista molhada, cruzar a BR perigosamente, na frente dos carros e entrar na rodovia sem sinalizar. Tudo aliado à inexperiência de motoristas em férias. Somadas a esses deslizes, a impunidade pelos crimes de trânsito completa o quadro de descalabro das estradas nacionais. Nos feriados, raramente se avistava uma patrulha da Polícia Rodoviária. A farra regada a álcool e a sensação de impunidade são combustíveis que alimentam a tragédia brasileira e gaúcha.

Ou a legislação muda, para realmente punir crimes e abusos no trânsito, ou continuaremos a liderar essa macabra estatística de um país que se vangloria de ser líder em vendas de carros, mas que não sabe como ensinar seus condutores a lidar com esse brinquedo perigoso e implacável.

* Jornalista e consultor de comunicação. Mantém o site www.comunicacaoecrise.com. E-mail jforni@terra.com.br.

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